Quarta-feira, Julho 08, 2009

Crescendo

Hoje ouvi uma parte de conversa alheia. Foi só um pouquinho, e não era privada. Uma pré-adolescente falava com um pré-adolescente. Faltavam da Matilde, uma colega de ambos na turma de equitação. Falavam de algo que não identifiquei à primeira, era algo lá deles. Gerou uma risada aqui, um aceno ali, um entendimento de ambas as partes. E eu observava-os, a uma distância, sob um céu chuvoso, deixando a brisa quente trazer-me alguns sopros da dita conversa.

E agora que faço o jantar, passadas tantas horas do sucedido, é que me dou conta da sensação de estranheza que me invadiu naquele momento. O verdadeiro interesse deste episódio. Isto é, o facto de a tal Matilde ser a minha filha mais velha. E de ali, naquele momento, a Matilde ser outra. Não era da minha filha que aqueles dois falavam. Era de outra Matilde que eles falavam. Dou-me conta de que a Matilde tem já, inquestionavelmente, uma vida dela, uma vida que me escapa, à qual eu não pertenço inteiramente. Existe já uma rede que emana dela, própria, característica, em crescendo. Existem já criaturas que se lembram dela em determinados momentos. Que a mencionarão em conversas ao sol. Quem sabe, que lhe telefonarão a propósito disto ou daquilo. Que ela influencia. A isto se chama crescer, expandir. Isto, sim, é a verdadeira rede social.

Isto é tão bom. É a única coisa que me ocorre dizer. Tão bom.