terça-feira, março 11, 2008

Lira d'Ouro

Hoje descobri o Lira d'Ouro, o restaurante Lira d'Ouro. Isto dito assim não parece nada de muito interessante. Mas, acreditem, é. Há anos que passo na sua porta, para cá e para lá, ele situa-se num eixo (num daqueles eixos...) da minha vida, rua essencial dos meus circuitos lisboetas, e há anos que digo para mim mesmo «tenho de ir almoçar ali». Hoje foi, pois, o dia.

O Lira d'Ouro fica ali à Escola Politécnica, na Rua Nova de São Mamede, no n.º 10. E tem portas de batente em madeira. E os vidros das portas e da montra misturam o transparente e o translúcido. E porque é que isto é importante? Porque restaurantes que tenham portas de batente (em madeira e vidro) e montras que alternem vidro transparente e translúcido são bons restaurantes, isso é certo. Acreditem que é verdade. Se até hoje isto não passava de uma teoria cá do rapaz, hoje deixei de ter dúvidas e, assim sem puxar muito pelo caco, junto o Lira d'Ouro ao Restaurante da Trindade, à Mimosa do Camões (antes da remodelação, claro está) e à Gruta Velha (idem, idem, aspas, aspas) e da teoria faço um facto, um tratado. Puxando um pouco mais pelo caco ainda junto ao lote esse fantástico restaurante, em Alcobaça, que dá pelo nome de Corações Unidos. Eu suspeito que esta relação entre as portas de batente (ao jeito de casa de pasto) e a boa comida tem, em muito, a ver com os Galegos, fruto de uma imigração muito forte e constante ao longo de vários séculos, personagens que muito deram a esta cidade e que são sinónimo de boa cozinha. Se a relação é sustentável ou não, bom, não sei. Para mim faz sentido.

Hoje entrei (pelas portas de batente, claro está), sentei-me (as cadeiras são de tempos idos, lindas), comi (sem pressas, com o tempo), senti-me em casa (e esse é outro traço comum a todos estes restaurantes, são familiares, neles podemos criar raízes se assim o entendermos), paguei (não tem multibanco, ficam avisados). Escolhi o que comi com o claro intuito de testar o Lira d'Ouro, não fosse a minha teoria perder-se precisamente hoje... Comi meia-dose de pastéis de bacalhau com arroz e salada. Os pastéis (assunto delicado) estavam mais que satisfatórios, cheios de pimenta, com espinhas à mistura (daquelas que fritam e depois acabam por se comer...). A salada marchou todinha, o que nem sempre acontece, sendo por isso um bom sinal. E o arroz, com uma textura pouco habitual, dando aqui e ali a alegre surpresa de um pedacinho de migas/açorda que, supostamente, acompanhavam um outro prato do dia mas que, por movimentos migratórios próprios de uma cozinha, escaparam para a minha travessa. Eu gosto dessas misturas e aprovei. A imperial (pastéis de bacalhau pedem imperial) estava bem tirada e fresca. Como sobremesa, uma prova difícil, superiormente ultrapassada. O leite-creme. Vem do frio e leva com o açúcar antes de cair na nossa frente. Misturam-se as temperaturas na boca e está feito o almoço. Quanto ao café (ponto, ainda, essencial), terá de ficar para a próxima... Como não tinham multibanco e eu só tinha comigo 8,50 euros e a conta eram 8,10 euros, tive de optar por uma de duas – ou pedia para ficar a dever 10 cêntimos e bebia o café ou deixava 40 cêntimos de gorjeta. Optei pela última. Suspeito que fiz bem. Porque vou lá voltar, é certo, e porque também faz parte da minha teoria, perdão, tratado, o facto de que o café é geralmente mau neste género de restaurantes.

Na net ainda procurei uma ou outra imagem do dito restaurante, mas nada. Fiquei, contudo, a saber que um tal de LPontes ali ía por volta de 1960 comer o que então era uma raridade, o churrasco. E fiquei a saber aqui que o grande O'Neill também o frequentava, o que não me espanta nem um pouco. É fácil imaginar uma boa parte dessa Lisboa já em vias de extinção a passar por ali; o O'Neill a beber umas imperiais ali, de pé, mangas enroladas e os braços no frio daquela pedra negra, daquele belíssimo balcão, logo à entrada. Sim, é possível. E é precisamente por isso que estes locais são encantandores. Por último, fiquei a saber (pelo primo David, que ali almoça diariamente) que a quinta-feira é o dia do cozido. Ui. Essa sim, é a prova definitiva. Lá estarei.



{pequena actualização}
1. Não se chama Restaurante Lira d'Ouro mas sim Casa Lira d'Ouro. E faz toda a diferença. Casa é muito mais familiar, certo? Está explicado.
2. Foi fundada em 1962 (lá se vai a teoria dos galegos...). Mas, cá para mim, já lá devia existir antes algum restaurante, quem sabe... de galegos.
3. O cozido é um espectáculo! E as pataniscas de bacalhau com arroz de feijão também.
4. Não se fuma.