
As cordas de Paredes, os sons de Verdes Anos, a ambição de Mudar de Vida, toda a mescla deste sentir e pulsar, escancaram-nos um país a preto e branco, um país de calçadas mudas, de ascenção social impossível e de uma ditadura mordaz, em suma, o país abafado, periférico, isolado, que todos conhecemos (mesmo aqueles que não o viveram). Um país de cafés de madeira, firmas de fórmica, agricultura de ferro, mar de malha, jardins de morte e prisões de aço. De patrões de cera, de polícias de álcool, políticos de naftalina, esposas amordaçadas e criadas desprezadas. Portugal, século XX.
O país de Mudar de Bina é um país em que a ascenção social foi trocada pela emergência da mobilidade étnica. Neste país de Lobo sentimos a rivalidade entre a Vodafone, a Optimus e a TMN, os cafés já não são mais, o hip-hop existe na cintura urbana e Lisboa já não é mais feita de preto e branco mas da cor que cada um escolher. Os sons de Norberto são sons sobreviventes ao cavaquismo, vivem num mundo e numa Europa que ninguém sonhou, estes sons são quase virgens, exóticos, distantes. Neste país, o amanhecer — e o galo é parceiro de Lobo! — pode ser (nem sempre é) um acontecimento. Mas vida está lá, pulsa, e parece querer ser feliz. Portugal, século XXI?
Sábado que vem este país mostra-se na ZDB, pelas 23.00.
Para já, toca desalmadamente no meu leitor de CDs...
O meu amigo Gomes diz-me que é o Disco do Ano. Quem sou eu para o contradizer?...

A foto de Noberto Lobo foi sacada daqui e é da Vera Marmelo (espero que não leve a mal...).
3 comentários:
Arranja aí essa cena. Já tinha ouvido falar, mas agora fiquei ainda mais curioso.
não levo a mal não senhor.
: )
mar.melo
Óptimo! Folgo em sabê-lo e mais uma vez o meu agradecimento.
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