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sexta-feira, junho 01, 2012

As minhas rótulas não querem ir para Campinas


Há sensivelmente um mês que os meus joelhos me doem. Me deixam mal. Faço gelo quando me lembro, dou-lhes com o duche gelado quando tenho coragem. Mas não doem sempre. Nem a todo o momento. Se corro na praia a toda a brida, fugindo à Matilde, não se queixam, não me derrubam, deixam-me ser feliz. Mas se ando, por aí, no dia-a-dia, a descer escadas, a subi-las, ir às compras, busca a Júlia, faz a janta, bom, aí, é só sinais, arrepios, guinadas.

*

Ontem à noite levei um tiro numa rótula. Sonhava... Sim, foi do "outro lado", mas foi duro. Não me lembro se era a esquerda, ou se era a direita. Lembro-me, sim, que sofri com a coisa, não foi agradável. Mas, por estranho que pareça {ou talvez não}, também não foi totalmente desagradável. Quando uma coisa tem um propósito não pode ser desagradável. Desagradável será sempre o tempo que demoramos até descortinar/ler/assimilar o dito propósito...

*

Uma coisa sei. O tiro vinha com sotaque brasileiro, o ambiente geral era tropical, a bala foi disparada por um moleque desavindo com a vida. Até tive direito a sorriso e dichote maliciosos, logo após o disparo. Não me lembro da frase textualmente, mas creio que a ideia não deve andar longe disto: algo em mim resiste em andar. Melhor posto. As minhas rótulas não querem ir para Campinas.

*

Elas sabem lá o que querem {poderemos pensar}. Mas eu sei o que quero. E ninguém {eu, aqui, caramba, oi, me escuta, aqui!} me ouve. Só me resta falar comigo mesmo, através delas. Há que estar atento, companheiro. A grande verdade é que quando corro na praia não penso onde será a repartição das Finanças em Campinas. Nem quanto custará um litro de leite no Brasil. Por outro lado, enquanto espero numa qualquer fila de supermercado, tenho tempo para isso. E não o desperdiço. Enquanto subo as escadas até lá acima {sempre são 4 andares sem elevador...}, mesmo sem dar por ela, estou a pensar se devo optar por casa ou apartamento, se deve ser com ou sem condomínio, se Barão Geraldo será ou não uma boa opção.

*

Se a minha rica mãe me estivesse a ouvir neste preciso momento, não duvido que diria algo deste género: o importante é estar na fila do supermercado com o mesmo espírito de felicidade, com o mesmo coração aberto, com a mesma consciência, como quando corremos na praia, rindo com uma filha. Na praia como no supermercado, em Lisboa como em Campinas, em Campo de Ourique como em Barão Geraldo. Sempre atento. Sempre vivo. Sempre aberto ao que aí vem. Se ela me dissesse algo como isto isto, eu acenaria, concordaria, sorriria. Até acrescentaria um «que interessante!».

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Tenho de ir contar tudo isto às minhas rótulas...

domingo, janeiro 01, 2012

2012!

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Um ano entre linhas...



Comecei 2011 a ler o The Bell Jar e acabei 2011 a ler o The Catcher in the Rye. Foi, portanto, um belo ano, o de 2011. A sério. Belíssimo ano! Não podia começar, nem acabar, melhor. Bless you Plath, bless you Salinger.

quarta-feira, julho 06, 2011

5 de Julho de 1982



Hoje completam-se precisamente 29 anos sobre o dia em que chorei pela primeira vez por causa de um jogo de futebol. Estou certo de que não chorei sozinho, nesse já distante dia. Segundo o WolframAlpha seriam 127 milhões mais... 1. Um dia destes não se esquece.

Lembro-me dessa tarde como se tivesse ocorrido ontem. Em tempos escrevi sobre isso e relembro hoje esta passagem: «E naquele fatídico jogo frente a Paolo Rossi {nunca um hat-trick, numa altura em que nem sequer sabia que tal coisa existia, me soube tão mal...} eu saboreei o amargo da derrota, a injustiça injustificável. Foi um baptismo terrível. Ali começava a minha devoção ao mundo da bola e ali eu chorei pela primeira vez por causa de um resultado de um jogo de futebol. Encontrava-me de férias no hotel da Torralta {o amarelinho; o mesmo amarelinho do escrete...} na serra da Estrela com o meu pai, nunca me esquecerei. Vi o jogo dentro do hotel, numa televisão na sala de estar, em silêncio, angustiado. Terminado o jogo, fui dar uns toques de bola, na relva, lá fora, com o meu pai. Sempre em silêncio. Aguentando em surdina algo de muito estranho para mim. Até que rebentei e chorei como a criança que era. É isto que guardo daquele que foi, provavelmente, o melhor escrete canarinho de sempre».

segunda-feira, abril 18, 2011

Oficialmente deprimido...



Então não descubro, neste instante, que vivi durante durante vinte e tal anos no mesmo prédio onde antes de mim habitara o lorpa Aníbal Cavaco Silva?! Isto não se faz a ninguém! Dá-me calafrios... Só me apetece praguejar... Acreditem, não é só paleio, dá mesmo para arrepiar... Safa!



É só clicar na imagem, está lá tudinho, no ponto 9... Brrrrr....

segunda-feira, abril 11, 2011

Madame I.



Há uns valentes anos atrás só o som do seu nome fazia-me sorrir. Hoje fiquei a saber que afinal ainda é assim {sort of}.





Photo A de Jean-Baptiste Huynh.
Photo B de Paolo Roversi.

segunda-feira, abril 04, 2011

Vergonha...

Hoje à noite a nação benfiquista perdeu uma oportunidade de ouro. Quando hoje me desloquei ao Estádio da Luz fi-lo com a única intenção de averiguar se a íamos aproveitar ou não {o resultado era irrelevante; a meu ver, o FCP é campeão desde o jogo que ganhou em Guimarães}. Posso afirmar agora, neste momento, já no sofá e com um banho tomado, que a desperdiçámos. Hoje o Benfica e os seus adeptos comportaram-se vilmente. Ao mais baixo nível. Acho mesmo que desde o último SLB-FCP ocorrido no antigo Estádio da Luz, antes de começar a ser demolido, que não assistia a tamanha demonstração de ódio e de falta de civilidade. Desde as bolas de golfe dos NN, aos urros xenófobos do terceiro anel de cada vez que Hulk tocava na bola, passando naturalmente pelo apagão e molha finais. E tantas outras que nem vale a pena referir. Uma miséria. Várias vezes me apeteceu levantar-me e vir-me embora. Mas fui ficando. Sobretudo para ver como era experimentar assistir à sagração de campeão de um rival em nossa própria casa, algo a que nunca tinha assistido até hoje. E lá fiz o meu papel. Ouvi-os cantar, depois fui gradualmente desligando-me deles, um a um, até que passaram a ser apenas uma qualquer mole de adeptos, aos saltos, e finalmente apercebi-me de que não sentia uma pinga de ódio em direcção àquela curva do topo norte. Disso escapei. A vergonha não me pertence. Mas sinto-a um pouco. E isso entristece-me.

quinta-feira, março 17, 2011

Ciranda de Pedra

Quem tem memórias recônditas, tão enigmáticas quanto inexplicavelmente saborosas, da telenovela Ciranda de Pedra {1981}, ponha a mão no ar. Por favor, alguém se acuse. Alguém diga que não estou sozinho...



É certo que tinha a maléfica Frau Herta {!}, mas que mais tinha aquela telenovela, por que raio me apareceu hoje à frente, assim sem mais nem menos?



Ah, os meus queridos amigos brasileiros estão de fora do inquérito...

domingo, janeiro 23, 2011

Arrependido

De não ter fotografado o meu boletim de voto. Estava tão lindinho! Sócrates em maiúsculas, assim mais ou menos bem desenhadinhas {o tempo também não abunda, nao é?} e um quadradinho com um X lá dentro. Soube-me bem. Pensei que me ia custar, sempre era a primeira vez... Mas não. O meu primeiro voto nulo foi isso mesmo, valioso.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Vou para nulos...

Agora que entramos no famoso período de reflexão, e como eu ando a matutar nisto há já uns dias valentes, eis a minha decisão. Está tomada. É que nem reflicto mais. O meu voto {pela primeira vez na minha vida de eleitor} vai ser nulo. Num país de nulidades, numa eleição de nulos, o voto não pode ser outro. Domingo que vem, levanto o rabinho, visto o fato domingueiro, vou ao liceu que nunca frequentei e rabisco o boletim. Vou lá fazer um quadrado a mais. Assim bonitinho, com as mesmas dimensões dos outros. E à frente vou escrever Sócrates. E pronto. Voto nulo, voto Sócrates. Voto no melhor dos nulos. E na segunda-feira vou trabalhar. De manhã, que à tarde vou ficar a ver uns filmes que estão ali guardados à minha espera.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Ai, a minha vida...

Ontem e hoje a inserir emendas na paginação de uma revista académica, cheia de artigos interessantes escritos por interessantes académicos. Mais um número de uma série de números, de uma revista que me dá um gozo enorme paginar. A grande diferença é que desta vez {pela primeira vez e daqui para a frente} a revista vai seguir e cumprir com o novo acordo ortográfico. Nem queiram saber o que para aqui vai... Onde antes imperava a procura da famosa gralha e a sua respectiva emenda, o debate sobre uma concordância, a análise da melhor solução gráfica para uma tabela, agora grassa a destruição da língua escrita... Passei dois dias a retirar cs e ps e quejandos... O comer das letras a mais, aquelas que não lemos, aquelas que agora saem de cena, mais parece um insensível metralhar na página, um abrir de buracos que é um disparate. De cada vez que posiciono o cursor e primo a tecla delete {ou backspace}, e assim acabo com letras que ali estão há quase 40 anos {é a minha perspectiva que conta, não se esqueçam...}, são verdadeiros golpes de machado que me custam horrores. Isto pode parecer parvo, mas não é. E até pode parecer que estou contra o acordo ortográfico, e não estou. É o dilema, é a ambiguidade que é estranha. Sei que estou a fazer o correcto, é o que agora se impõe, é o que o cliente quer, mas custa-me fazê-lo. Será, certamente, uma questão de habituação. Por enquanto é só uma enorme deceção... aha!, vêem... perdão, veem?

E o drama de quem acreditar mesmo {sei lá, como o Mourinho...} na nação...

«O termo "nacionalismo", como se pode ver, não está sendo usado nesta investigação inteiramente no mesmo sentido em que é empregado na vida cotidiana. No uso corrente, o adjetivo "nacionalista" é, com freqüência, vagamente distinguido de outros como "nacional" ou "patriótico" a fim de expressar censura, com a ajuda do primeiro termo, e aprovação, com a ajuda do segundo. Mas em muitos casos, aquilo a que se chama "nacionalismo" é, simplesmente, o "patriotismo" de outros, e o que uma pessoa designa por "patriotismo" é a sua própria forma de "nacionalismo".» Norbert Elias, Os Alemães. A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, Jorge Zahar Editor, 1997.

O drama da minha vida...

«A imagem que um indivíduo faz da nação de que forma parte é também, portanto, uma componente da imagem que ele tem de si mesmo, a sua "auto-imagem". A virtude, o valor e o significado da nação também são os dele próprio. As teorias sociológicas e psicossociais correntes, na medida em que se interessam por tais problemas, oferecem o conceito de identificação para reflexões sobre fenômenos desse gênero. Entretanto, é um conceito não inteiramente adequado para o que realmente se observa neste caso. O conceito de identificação faz parecer que o indivíduo está aqui e a nação ali; subentende que "indivíduo" e "nação" são duas entidades diferentes, separados no espaço. Como as nações consistem em indivíduos, e os indivíduos que vivem nas mais desenvolvidas sociedades-Estados do século XX pertencem, na grande maioria dos casos, de forma inequívoca, a uma nação, uma conceituação que evoque a imagem de duas diferentes entidades separadas no espaço, como mãe e filho, não se ajusta aos fatos.
As relações desse tipo só podem ser adequadamente expressas em termos de pronomes pessoais. Um indivíduo não só tem um "eu-imagem" e um "eu-ideal", mas também um "nós-imagem" e um "nós-ideal". É um aspecto central da nacionalização do ethos e do sentimentos individuais, o qual pode ser observado empiricamente nas sociedades-Estados industriais dos séculos XIX e XX, que a imagem dessas sociedades-Estados, representada, entre outros, por símbolos verbais como "nação", constitui uma parte integrante dos "nós-imagens" e dos "nós-ideais" da maioria dos indivíduos que formam, uns com outros, sociedades desse tipo. [...] Dizer "Sou russo, americano, francês", ou seja o que for, subentende usualmente "Eu e nós acreditamos em idéias e valores específicos", "Eu e nós suspeitamos e sentimo-nos mais ou menos antagônicos em relação a membros desta ou daquela nação-Estado", "Eu, assim como nós, temos vínculos e obrigações em relação a esses símbolos e á coletividade que eles representam". Além disso, a imagem desse "nós" forma parte integrante da organização da personalidade do indivíduo que, nesses casos, usa os pronomes "eu" e "nós" com referência a si mesmo.» Norbert Elias, Os Alemães. A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, Jorge Zahar Editor, 1997.

quinta-feira, setembro 30, 2010

39 anos

3.9 décadas
14.235 dias
341.640 horas
20.498.400 minutos
1.229.904.000 segundos



{Wolfram Alpha dixit}

quinta-feira, agosto 26, 2010

Update



As minhas férias – mas o que são as minhas férias??? – continuam um misto de obras, praia, A8, a filha mais velha a tatuar {hena, meus amigos} uma flor na anca, almoçar e jantar fora {o que eu sinto saudades de cozinhar, meus Deus...}, mais A8, a filha mais nova a ficar mais velha {o speed a que o faz é lindo, irrepetível e mágico; uma espécie de raio verde!}, dormir na mãe, mergulho divinal no frio Atlântico, ainda e sempre a A8, e pó, muito pó... Nada mal, heim? Eu não me queixo, sério. Só o Glorioso me arrelia...

domingo, agosto 01, 2010

Mas dourado mesmo é isto...



Há pouco, na varanda, Gin tónico na guelra, o meu golden shower foi assim...

sábado, julho 24, 2010

Gosh, I'm in love with this guy...



Este tipo tira-me do sério.
Grande John Mahoney.
Grande Walter.

sábado, julho 17, 2010

In Treatment



Uma vez mais a HBO não deixa um tipo descalço. Aqui em casa {acabadas que estão cinco temporadas de Grey's Anatomy... sim, amamos muito a nossa filha mais velha!} já só temos tempo para isto. Pequenos episódios de 25 minutos, um psicanalista, quatro pacientes e a própria psicanalista do psicanalista... em verdadeiros mano-a-mano de parlapiê... Muito bom!

quinta-feira, julho 08, 2010

Declaração de interesse

No dia 6 de Junho a selecção holandesa chegou à África do Sul com um único objectivo no pensamento: ganhar o torneio, levar a taça {uma cópia, na realidade} para a Holanda e poder finalmente coser uma estrelinha na camisa cor-de-laranja. Alguns poderão perguntar-se: Mas não é o que todos pensam, não é esse o objectivo de todos aqueles que participam neste evento? Naturalmente que não. Pensar que o Paraguai vai ao Mundial para ganhá-lo é um disparate. Acreditar que o Gana tem ambição e meios suficientes para chegar a um Mundial com esse objectivo na mente também não é muito realista. São muito poucas as selecções que podem, conseguem, se atrevem, a fazê-lo. E, se pensarmos bem, essas são todas aquelas que já o fizeram pelo menos uma vez. Por vezes, isto parece a história do ovo e da galinha, ou de como entrar no Frágil à sexta-feira... Como ganhá-la se para o fazer é preciso já a ter ganho antes? Com excepção do Uruguai, diria, perdoem-me a franqueza {e se estamos a ser francos, então junte-se ao lote a Inglaterra e a França também...}, todos os que já ganharam este torneio quando entram é para ganhar. Mas se há excepções em relação aos que já ganharam a taça e, de qualquer modo, "perderam" esse direito a reclamá-la de novo, também há excepções para os que nunca a conquistaram e, ainda assim, nunca deixaram de achar que é um direito que lhes assiste. A Holanda é um desses países. A Espanha começa ser um desses países. Esta final vai ser lixada...

A Holanda, pelo que sei, tirando 74 e 78, nunca chegou a um Mundial com o expresso objectivo de o ganhar. Sendo, aliás, precisely my point, esses dois anos os únicos em que atingiu a final. Em 74 era óbvio que eram eles os campeões, mas não foram... Em 78 era óbvio que eram eles os campeões, até para provar que 74 fôra um erro, um deslize, mas não foram... E daí para a frente, houve, tem havido, uma espécie de encolher de ombros não muito resignado, não rancoroso, até de certa forma salutar, em que a conclusão geral é, tem sido, selecção após selecção, estrela após estrela: que se lixe, jogamos bem, isso ninguém nos tira, temos fãs pelo mundo inteiro, somos animados, temos estilo, deslizamos em campo, somos os maiores, ninguém joga como nós, só não ganhamos. Sejamos justos, tudo isto é verdade, tudo isto é de facto salutar, ser o underdog é uma posição admirável, mas tudo isto é incomportável por muito tempo. Bom, foram 32 anos. Precisamente.

Foi preciso chegar a 2010, foram precisos 32 anos, para conseguir reunir um grupo de jovens jogadores capazes de interiorizar esse enorme objectivo e de exteriorizar essa vontade. Um ciclo que culmina agora nesta final, nesta chance que alguns têm para provar que estão certos, para provar que, por vezes, compensa abandonar o futebol, o meio, e abraçar o objectivo, o fim. Porque é disso que se tem tratado sempre, e é disso que se trata agora fundamentalmente. A populaça divide-se, ó se se divide. Nem todos {e aqui me incluo} acham que é um bom negócio, este de virar as costas a toda uma cultura, a todo um passado, e ir directo ao assunto, gerir as expectativas e cumprir com os objectivos. Os malditos objectivos. Ainda hão-de matar o futebol por completo... Mas muitos {a maioria} é assim que pensam, é assim que encaram este Mundial de 2010. Estão fartos de encantar e nada ganhar. E então viram neste grupo a oportunidade. Este grupo não tem meninos. Este grupo não tem anjinhos. Este grupo não pensa em Cruijff. Este grupo não parece olhar para trás nunca. Não. Este grupo é de agora, do momento. É um grupo que não tem medo, e quando o tem não o demonstra. É um grupo pós-BarçaxInter de 2010. O objectivo acima de tudo. O título. A conquista. O feito.

Comandando o grupo está um tipo que recentemente foi considerado pela KNVB o mais eficaz e eficiente treinador nacional holandês de sempre. Como? Desculpe? Ainda recentemente este senhor foi eleito pelo Times o melhor de todos os tempos... Não vale nada? Bert van Marwijk chega e conquista? Shame on you. Van Bommel chega a Joanesburgo a pensar na legenda que diz Weltmeister sempre que Paul Breitner fala na televisão. Pffff... Wesley Sneijder, o motor, a alavanca, o elemento-chave deste grupo, vem para África pura e simplesmente encantado por Mourinho. São as palestras, é a pulseira magnética. Diz publicamente «quero ganhar tudo!». Esquece as palavras recentes, exactamente as mesmas, de Cristiano, aquele que não ganhou tudo... Os outros acompanham. O ritmo está marcado, o compasso é fácil. Van Persie percebe e faz o que lhe pedem. Robben acha que continua a jogar bonito, mas não percebe que faz o que lhe pedem. Kuyt não parece pensar muito, apenas faz. Falar dos dois do meio-campo nem vale a pena, só me entristeceria mais. O quarteto defensivo é deixá-lo. O que torna mais chato de encarar esta realidade é que todo este processo parece ser bem natural, não há anticorpos {comme d'habitude} na equipa, os jogadores falam em uníssono, o mesmo discurso em todas bocas, unanimidade conquistada. Pouco holandesa, esta nova faceta.

É, portanto, dado mais do que adquirido que este ano a Holanda sacrifica o passado, o jogo atraente e entusiasmante, pelo título, pelo feito. Está entendido. Mas não me peçam para estar satisfeito. Não estou. É óbvio que salto imediatamente da cadeira aos berros quando Gio marca o golo que marcou contra o Uruguai. Como não? Mas sei que há mais donde este veio. E não vêm. Claro que não tenho palavras para o segundo golo de Sneijder frente ao Brasil. Como não? Mas sei que é mais o golo típico das equipas vencedoras, das equipas que ganham taças, do que o golo mágico de quem está a respirar futebol do primeiro ao último minuto. Quero que eles ganhem, quero. Mas mais pelo que já gritei por Dennis Bergkamp do que pelo jogo chato {chato é pouco} que fizeram contra o Japão. Mas mais pela beleza de Aron Winter em campo do que pela energia gananciosa de Van Bommel. Mas mais pela solidez de Ronald Koeman, general olhando a linha inimiga, do que pelos remates frouxos de Van Persie. Mas mais pela magnífica cabecinha de Patrick Kluivert do que pela insipidez geral actual. Mas também mais por alguns momentos insólitos e beneméritos {este e este} do que pelo enigma que parece ser Rafael van der Vaart. Mas muito mais pelo que estes mesmos rapazes fizeram na Suiça há dois anos atrás do que pelo que andam a mostrar neste preciso momento. E, acima de tudo, muito mais pela vã esperança de que uma vez aposta a tal estrela na camisa, toda a ilusão se desfaça, que o embuste seja detectado, que o prazer e a alegria em campo regressem, que uma vez campeões não sintam mais a vil necessidade.

Vil?! Falo, essencialmente, do ponto de vista do adepto. Nunca tinha vivido um torneio deste modo. Nunca num torneio a Holanda me disse «viemos para ganhar» e cumpriram {bem sei, bem sei, ainda falta a final...}. Este ano senti o que deve ser para um torcedor brasileiro, argentino, alemão, italiano, assistir aos jogos da sua equipa. A pressão. Eu costumava divertir-me a ver a Holanda jogar. Isso não tem preço. Este ano não me divirto, sofro. Este ano sofro pela alegria prometida. Mas uma alegria conquistada pelo sofrimento? Não sei não. Isto não é o Benfica, isto não é a Liga Sagres. Espero sinceramente que ganhem e que sejam felizes. E que, como adepto, possa depois assistir à retirada de Van Bommel, de Gio {mais do que ninguém merece a estrelinha} e de Van Marwijk e de todo este mambo jambo... Que regresse o 4-3-3. Que regressem o domínio do espaço e a posse da bola. Que regressem os golos magistrais. Que alguém se lembre de lá pôr à frente, sei lá, Foppe de Haan. E que pequenos tesouros como Affelay, Elia e Huntelaar possam desenvolver-se, crescer e encantar sem a pressão que tudo esgana, estagna, envenena.

Pronto. Está dito. Safa. Nunca mais é domingo...

terça-feira, junho 29, 2010

Vender a alma ao Diabo...

Cheira-me que este blog vai estar mudo até sexta-feira... Deprimido, stressado, tristonho, cabisbaixo, deprê... Sinto que vendi a alma ao Diabo! Como apoiar, entusiasmado, esta selecção? Já não restam dúvidas que a Holanda é a nova Itália! Joga feio e desinteressante, adormece o pessoal, ganha jogo após jogo e, sem ninguém dar por isso, záz, dá cá a taça que fomos nós que ganhámos! Como trocar, em consciência, a qualidade de jogo pelo prémio?| Esse será, de resto, o meu maior desafio. Como fazê-lo? Tenho estofo para tanto? No vai-e-vem dos comentários dos blogs {pró-}holandeses por onde ando já deu para perceber que muitos dos que por lá andam não se importam de jogar feio e chato desde que ganhem a taça. Dizem que estão fartos de andar décadas e décadas a jogar bem, a encantar o mundo e depois, quando a hora aperta, zás, lá se ficam pelo caminho. Não, basta! Este ano é para ganhar. Que se lixe o jogo, a taça é o que queremos. Eu lá vou contrapondo, mas vejam lá bem, não se esqueçam de 74, e de 78, e de 88, e de 98, e de 08... Nope, já esqueceram. Querem resultados. Querem ganhar. Foda-se mais à merda do Mourinho!!! Porra de vírus encapotado! Merda de gajo!

Mas querem saber? Estou-me a cagar. Aprendi a marchar com eles {os holandeses, os de gema} e, tal como eles, só quero é despachar o Brasil {há muito tempo que o Brasil não apresenta um escrete tão escroto...} na sexta-feira que vem, vingar {como é possível estar para aqui a usar este termo?!} 94 e 98, e seguir em frente. E mais tarde, na final, vingar 78 e arrasar a Argentina de Maradona. Tudo isto jogando feio e ganhando? Se assim for necessário. Se assim for possível {e olhem que é}. Que se lixe! Já que abdicámos do melhor que temos, o jogo, a mestria, ao menos que isso sirva para alguma coisa. Para que a taça rume à Holanda. E, acima de tudo, para que daqui a 4 anos já haja uma estrela dourada a brilhar nas camisas laranja. E que, então, feitas as contas e tranquilizados os corações, possamos recuperar aquilo que mais ninguém tem. Um futebol absolutamente delicioso. Esmagador de tanta beleza!

Foda-se, vendi mesmo a alma ao Diabo! Isto costuma dar asneira, no final...

Só me resta gritar {desesperado?} Oraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaanje!