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terça-feira, janeiro 11, 2011

E o drama de quem acreditar mesmo {sei lá, como o Mourinho...} na nação...

«O termo "nacionalismo", como se pode ver, não está sendo usado nesta investigação inteiramente no mesmo sentido em que é empregado na vida cotidiana. No uso corrente, o adjetivo "nacionalista" é, com freqüência, vagamente distinguido de outros como "nacional" ou "patriótico" a fim de expressar censura, com a ajuda do primeiro termo, e aprovação, com a ajuda do segundo. Mas em muitos casos, aquilo a que se chama "nacionalismo" é, simplesmente, o "patriotismo" de outros, e o que uma pessoa designa por "patriotismo" é a sua própria forma de "nacionalismo".» Norbert Elias, Os Alemães. A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, Jorge Zahar Editor, 1997.

O drama da minha vida...

«A imagem que um indivíduo faz da nação de que forma parte é também, portanto, uma componente da imagem que ele tem de si mesmo, a sua "auto-imagem". A virtude, o valor e o significado da nação também são os dele próprio. As teorias sociológicas e psicossociais correntes, na medida em que se interessam por tais problemas, oferecem o conceito de identificação para reflexões sobre fenômenos desse gênero. Entretanto, é um conceito não inteiramente adequado para o que realmente se observa neste caso. O conceito de identificação faz parecer que o indivíduo está aqui e a nação ali; subentende que "indivíduo" e "nação" são duas entidades diferentes, separados no espaço. Como as nações consistem em indivíduos, e os indivíduos que vivem nas mais desenvolvidas sociedades-Estados do século XX pertencem, na grande maioria dos casos, de forma inequívoca, a uma nação, uma conceituação que evoque a imagem de duas diferentes entidades separadas no espaço, como mãe e filho, não se ajusta aos fatos.
As relações desse tipo só podem ser adequadamente expressas em termos de pronomes pessoais. Um indivíduo não só tem um "eu-imagem" e um "eu-ideal", mas também um "nós-imagem" e um "nós-ideal". É um aspecto central da nacionalização do ethos e do sentimentos individuais, o qual pode ser observado empiricamente nas sociedades-Estados industriais dos séculos XIX e XX, que a imagem dessas sociedades-Estados, representada, entre outros, por símbolos verbais como "nação", constitui uma parte integrante dos "nós-imagens" e dos "nós-ideais" da maioria dos indivíduos que formam, uns com outros, sociedades desse tipo. [...] Dizer "Sou russo, americano, francês", ou seja o que for, subentende usualmente "Eu e nós acreditamos em idéias e valores específicos", "Eu e nós suspeitamos e sentimo-nos mais ou menos antagônicos em relação a membros desta ou daquela nação-Estado", "Eu, assim como nós, temos vínculos e obrigações em relação a esses símbolos e á coletividade que eles representam". Além disso, a imagem desse "nós" forma parte integrante da organização da personalidade do indivíduo que, nesses casos, usa os pronomes "eu" e "nós" com referência a si mesmo.» Norbert Elias, Os Alemães. A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX, Jorge Zahar Editor, 1997.

segunda-feira, novembro 08, 2010

Terrível lastro, esse de ser do FCP...

«I was sorry (as before) for being in Newgate, but had very few signs of repentance about me. On the contrary, like the waters in the cavities and hollows of mountains, which petrify and turn into stone whatever they are suffered to drop on, so the continual conversing with such a crew of hell-hounds as I was, had the same common operation upon me as upon other people. I degenerated into stone; I turned first stupid and senseless, then brutish and thoughtless, and at last raving mad as any of them were; and, in short, I became as naturally pleased and easy with the place, as if indeed I had been born there.
It is scarce possible to imagine that our natures should be capable of so much degeneracy, as to make that pleasant and agreeable that in itself is the most complete misery. Here was a circumstance that I think it is scarce possible to mention a worse: I was as exquisitely miserable as, speaking of common cases, it was possible for any one to be that had life and health, and money to help them, as I had.
I had weight of guilt upon me enough to sink any creature who had the least power of reflection left, and had any sense upon them of the happiness of this life, of the misery of another; then I had at first remorse indeed, but no repentance; I had now neither remorse nor repentance. I had a crime charged on me, the punishment of which was death by our law; the proof so evident, that there was no room for me so much as to plead not guilty. I had the name of an old offender, so that I had nothing to expect but death in a few weeks' time, neither had I myself any thoughts of escaping; and yet a certain strange lethargy of soul possessed me. I had no trouble, no apprehensions, no sorrow about me, the first surprise was gone; I was, I may well say, I know not how; my senses, my reason, nay, my conscience, were all asleep; my course of life for forty years had been a horrid complication of wickedness, whoredom, adultery, incest, lying, theft; and, in a word, everything but murder and treason had been my practice from the age of eighteen, or thereabouts, to three-score; and now I was engulfed in the misery of punishment, and had an infamous death just at the door, and yet I had no sense of my condition, no thought of heaven or hell at least, that went any farther than a bare flying touch, like the stitch or pain that gives a hint and goes off. I neither had a heart to ask God's mercy, nor indeed to think of it. And in this, I think, I have given a brief description of the completest misery on earth.»
(Moll Flanders, Daniel Defoe, Penguin Books, 1989.)

Estes eram pensamentos que atravessavam a mente de Moll Flanders assim que aterrou na prisão de Newgate. Tão similares devem ser os pensamentos de certos {que os deve haver, imagino, com dificuldade, mas imagino} portistas... A vida não é fácil.

sábado, julho 17, 2010

In Treatment



Uma vez mais a HBO não deixa um tipo descalço. Aqui em casa {acabadas que estão cinco temporadas de Grey's Anatomy... sim, amamos muito a nossa filha mais velha!} já só temos tempo para isto. Pequenos episódios de 25 minutos, um psicanalista, quatro pacientes e a própria psicanalista do psicanalista... em verdadeiros mano-a-mano de parlapiê... Muito bom!

terça-feira, agosto 25, 2009

Pequena nota

Tenho recebido críticas, reclamações de como o blog está despido, parado, isto e aquilo, enfim, chato. Eu percebo, eu percebo.

Há uns meses atrás achei que estava na altura de passar esta prosa para um registo mais pessoal, mais intimista, andava a sentir-me farto de encher um chouriço que, além do mais, eu nem sentia ser assim tão interessante aos olhos dos outros. Como podia, se os chouriços dos outros também não me pareciam assim tão interessantes? Estava num ponto em que acreditava sinceramente que o que cada um diz não interessa a quem ouve. Num ponto em que aquilo que os outros diziam não me interessava verdadeiramente, logo o que eu dizia também não deveria interessar. Errado. Hoje percebo que isto dos blogs é tudo menos pessoal e intimista. Aqui não há espaço e lugar para vozes interiores. Isto é realmente o tal café de que falei em tempos. Aqui falamos uns para os outros. {Eu até já me verguei ao fascínio do Facebook, vejam lá...; é só mais um café, numa outra esquina.} Não há aqui espaço para grandes epifanias. Se queremos momentos íntimos e sossegados vamos para um jardim, não para o café. Portanto, estão de volta os links, os vídeos, o hardcore, o socratismo e o diabo a quatro.

De que andava eu a fugir? Nem interessa bem. Andar a fugir já é mau suficiente. Se estive quatro dias acampado no meio da populaça, tipo 3.º Anel elevado à potência, que mal me poderá fazer, que mal poderei eu fazer, à {des}interessante blogosfeira?

sábado, agosto 15, 2009

Férias de quê?

Às vezes consigo ser um chato do caraças, a pain in the ass, uma verdadeira besta, um idiota. Pergunto-me, por vezes, como consegue a Susana aturar-me. Ou a Matilde, que já tem corpinho para apanhar comigo. Até já a Júlia deve ter cheirado um pouco a fumaça... Mas depois vêm as vezes, que isto é como as ondas, em que eu domino a coisa, miro o céu e vejo-me de lá, entendo coisas que nunca entenderia antes de, e torno-me mais humano um pouquinho, e fundo-me, deixo de ser um palerma.

No outro dia pensava, em jeito de epifania, no bom que era eu não ter poder, verdadeiro poder, de espécie alguma. Tivesse eu poder e seria a desgraça, correriam as multidões, escorreria sangue vário, ruiriam construções e erguer-se-iam ideias erradas e perigosas {em forma de monumentos sinistros, concerteza}. Mas depois pensei, «Olha lá, mas tu tens poder. Tu tens poder sobre ti. No fundo, esse é o verdadeiro poder. E, bem vistas as coisas, até nem tens feito um mau trabalho. Bom, é certo que és o teu maior carrasco, mas também te tens mostrado por demais vezes capaz de te amares. Olha, deixa-te de tretas e vai em frente. Olha, olha para a Júlia». E assim tem sido nos últimos dias. É isto que trago de férias. Nada mal. Fui para elas com menos.

sábado, junho 20, 2009

Massa adiposa

No último ano, mais coisa menos coisa, ganhei uma pança. Ou será apanhei? Calhou-me? Apanhou-me? Seja como for, também não é bem uma pança, talvez uma pancinha. É mais que um pneu, mas não atinge ainda proporções dramáticas. Será aquilo a que as mulheres geralmente se referem como sendo a barriga, «ganhei uma barriga»? O facto é que altera-me o sentido da prumada. Afasta-me das minhas t-shirts, ao afastá-las de mim, do meu umbigo. Cria-me ali em baixo uma camada de ar que não reconheço, um espaço estranho, um vazio que eu não criei. E o que dizer daquele reflexo nas montras, nos passeios? É melhor não dizer nada... E pesa-me na coluna, caramba. Mas o mais chato mesmo é ela não falar comigo. Não sei o que quer de mim, não sei o tenho a aprender com ela. Só me lembro do talk-to-me-i'm-bored do Seinfeld, mas do que se trata mesmo é de um silêncio chato, chato. E não me serve o argumento da idade, da vida sedentária, da falta de exercício dos últimos tempos. Muita gente vegeta para aí em vidas desregradas e, contudo, mantém a "forma". Não, ela está aí porque tem algo a dizer. Mas não a oiço. Estou incapaz de a ouvir. Eu não a odeio, mas, de facto, também não a quero ali. E não querer aqui uma coisa que aqui está, regra geral, dá asneira. Estranheza. De momento.

terça-feira, dezembro 02, 2008

A vida sai-nos, de facto, do lombo...

O rapaz devia ter uns 5, 6, 7 anos de idade. Era loiro loiro, sardas dispostas em redor do nariz, camisas aos quadrados e calças de fazenda {quando não de bombazina} e fazia as alegrias dos seus pais. Sabia-o, sentia-o. Na realidade, bem vistas as coisas, o rapaz nem era bem rapaz. Naquele tempo, naquele país, rapazes loiros com calças de fazenda eram meninos. E esse menino era esperto. Atento. E miserável. Encontrava-se na pior das situações, encurralado. Já tentara utilizar a manha, a sonsice, a manipulação, que tinha ao seu alcance, em doses adequadas à sua idade, para contrariar as intenções dos seus pais. Já ensaiara a fuga, solução de quando tudo falha, fuga desenfreada pelos corredores do hospital que tão bem conhecia. Era um hospital verde, e castanho, e tons cinza aqui e ali, nas fardas, nas maçanetas, nos aparelhos. Nas patentes, estava o dourado. Nas boinas e nos ombros. Mas esse dourado, esse brilho, não o fascinavam, não o ofuscavam, neste preciso momento. Agora era tempo de salvar a pele. Fuga. Falhada. Preso. Agarrado. E com um toque de força a mais! Aquele toque a mais que machuca além da pele. O menino estava desamparado. Além de que já tinha levado com aquele olhar felino, assustador, que tão bem conhecia na sua mãe. E levara também com aquele outro, do pai, tão assustado quanto ele, mas disfarçado de autoridade e resolução, mãos-dadas com a chatice de tudo aquilo. Era uma chatice, não houvessem dúvidas. Mas para o menino era também, e essencialmente, uma traição. Todos os meninos {e rapazes, que aqui não há distinções!} experimentam, têm de, a sensação de traição. A deste menino foi naquele dia. Era a traição que emanava, vejam bem!, de presenças tão fortes na sua vida, como não havia outras, as mesmas que infernizavam a sua vida naquele dado momento. Era a traição de o fazerem passar por estúpido ao lhe acenarem com o milagre dos gelados sem limites, sem restrições, sem escolha de sabores, eram todos possíveis. Era só pedir. Que se lixassem os gelados! Ele queria era manter as amígdalas! Ele queria era evitar toda aquele sofrimento e humilhação. É verdade que já lhe tinham explicado que era assim mesmo, necessário, e que nem havia de custar horrores. E havia o tal prémio, no fim. Mas nem o conforto dos gelados o demovia daquele estado de terror. E agora, apanhado que estava, imóvel na cadeira, só lhe restava a traição daqueles ali em volta, aqueles estranhos de bata, frenéticos, embasbacados uns, resolutos outros, todos aplicados naquele ataque coordenado. Em relação a estes nem se tratava de traição, que não os conhecia de lado algum, nem eles a ele. Não havia laços, a quebrar. Estes, o que praticavam era mesmo tortura. E esbirros que eram, machadada letal deram. Na forma de máscara etílica, sufoco, grito, morte. Pontos cyan, magenta, yellow, black. Tudo decomposto. E de seguida o vazio. A morte. O silêncio.

{...}

A mão da mãe na sua. Sussurros. A respiração da mãe, ali ao alcance de um olhar. Mas os olhos insistiam em permancer pesados. O corpo, mais que a alma, dorido. E lentamente o menino despertou. Com a luz veio um pouco de rapaz até àquele menino. Assim meninos se tornam rapazes, assim rapazes se tornam homens. Assim homens se tornam meninos. Mas o corpo dorido persistia. Agora que pensa nisso, lembra-se de ter comido, realmente, um ou outro gelado. Mas também se recorda de que não souberam a nada {a sua mãe, mais tarde, contou-lhe que, recordando esse episódio, ele lhe confessou que só anuiu em comer e saborear e elogiar os famigerados gelados por consideração pela sua mãe e pelo seu sentido sentido de culpa}. E se não lhe sabiam a nada não era devido a um qualquer defeito físico, não, era mesmo porque o mal estava feito. E mais do que isso, era o mal estar feito e nada ter mudado. O mundo não acabara. Antes pelo contrário.


Quando contaram ao homem que fora esse rapaz que fora esse menino que toda esta aventura, toda esta dor e toda esta culpa estavam aninhadas ao longo da sua espinha dorsal, das suas vértebras e dos seus múltiplos nervos, proporcionando-lhe dores e incómodos, todos eles assentes em 30 anos de culpabilização dos progenitores, ele nem queria acreditar. Mas era, de facto, bem simples. Não lhe restaram dúvidas quando, após mãos mágicas operarem as suas artes e deixando essa energia entrar-lhe corpo/mente/espírito adentro, tudo se dissipou, os nós se desfizeram, e lavar a louça sem dores adicionais voltou a ser possível. A questão, para ele, agora, é determinar o que significarão, o que ocultarão, aqueles pequenos incómodos que ainda por ali se manifestam...




Por aqui é a osteopatia que fascina e as capacidades de quem é realmente competente. Aqui é mais a vertente sacrocraniana e a certeza de que tudo está no "realmente". Bliss!, essa é que é essa!

segunda-feira, junho 30, 2008

Jesus, I'm dazzled...

Não posso agradecer o suficiente ao Daniel M. por ma ter trazido à minha beira. Tem-me acompanhado nestas derradeiras horas de esposo abandonado, de pai solteiro. Obrigado, obrigado, obrigado.

E quem a traz a Portugal? Ela já cá esteve!? Não, pois não? Enquanto esperamos por ela, restam-nos momentos como estes.

terça-feira, junho 24, 2008

«I had to stop jogging because I needed my whole body to hate him.»

Só para terem uma ideia de como isto anda "mal", azul plúmbeo, denso e cheio de lastro, à beira do espinhoso, topem só o humor que me faz rir nos dias que correm...


segunda-feira, junho 02, 2008

Confesso...

... que estou curioso em relação ao como irão {se irão} os portugueses conciliar a questão dos preços dos combustíveis com o apoio à selecção nacional. Ah, pois, é que a Galp é um dos patrocinadores oficiais da selecção, não é? Há uns tempos atrás a cena era "Queremos mais, queremos mais..." {e o raio que os parta...}, hoje em dia é mais "Quanto mais melhor"... Sempre honestos, valha-nos isso.