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quinta-feira, julho 07, 2011

É lixado!

Mas afinal o que nos custa assim tanto? Ouvir a Moody's, a Fitch e a Standard & Poor's chamar-nos de lixo? Ou sabermos, lá no fundo, que as ditas agências até têm razão e que não passamos de lixo? Infelizmente, uma vez mais, trata-se da primeira. É a indignaçãozinha do costume. Fosse a segunda e talvez pudéssemos um dia deixar de o ser. Mas, como sempre, a solução mais fácil, mais imediata, tão imediata que é já natural, é a do ofendido, a do pequeno injustiçado, e nunca a daquele que aproveita o golpe para se recolocar em posição. Ainda ontem lia na caixa dos comentários de um qualquer post recheado de indignação a seguinte invectiva: «Eles nem sabem com que povo se meteram!». Sabem, sabem, caro compatriota desiludido. E por isso mesmo saiu aquela nota. Ou pensa que eles lá nas agências não sabem que por cá os futuros magistrados da nação copiam nos exames? Sabem, sabem, pequeno guerreiro luso {sem poção mágica, felizmente...}. Ou pensa que eles lá nas agências não sabem que isto é um país de merceeiros, lápis atrás da orelha, discurso eternamente saudosista e um porradão de favorzinhos a mover a economia? Pois. Tivéssemos a coragem de olhar para os nossos defeitos, de encarar os nossos medos, os nossos vícios e as nossas deficiências e muito provavelmente não estaríamos nesta situação. Mas não. A indignação grassa. Logo, afasta-nos do problema, melhor, retira-nos, desresponsabilizando-nos, do problema. O problema já não somos nós, mas sim o insulto, a ousadia da agressão. A indignação está infinitamente mais bem cotada do que a vergonha em terras lusas. Não interessa saber se há um mínimo de justificação nisto tudo {quem de perfeito juízo emprestaria dinheiro a Portugal sem garantias atrás de garantias?!}; há, pelo contrário, que encontrar rapidamente o objecto da nossa revolta, da nossa indignação. É sempre a mesma história, há sempre um responsável, nunca nós, sempre alguém; já foi o Platini, já foram os finlandeses, os holandeses, a Merckel... Há uns meses atrás foi fácil, eram já seis anos seguidos de Sócrates, o nazi, o monstro, o drácula, o arrogante, e foi correr com ele {graças a Deus existem as eleições...}. Agora, são as agências, os especuladores, os capitalistas selvagens, os tais meninos depilados a laser que têm de pagar a coca que consomem nas festas. Mas quem vai correr com as agências? Pois, também me parece. Aqui não há eleições que nos valham. Aliás, para piorar ainda mais a nossa situação de indignado aldrabão, nunca antes nos passou pela cabeça desejá-las. Nunca antes as agências foram um problema, pois não? É que enquanto nos avaliavam bem {na realidade, mal} tudo estava bem {na realidade, mal}. Agora que nos avaliam {finalmente} bem, tudo está mal {pensamos nós}... É lixado!

quinta-feira, maio 26, 2011

Portogal



Já uma vez aqui o disse e repito-o. Embora o SLB seja o clube com mais representantes em Portugal é o FCP quem melhor representa Portugal. É triste, mas é verdade. Mas é triste porque não abona nem a favor de Portugal, nem {já agora} do FCP. O FCP, tal como o país, é fraco, baixo, sem escrúpulos, não tem cultura democrática, lê e escreve mal, foge aos impostos, estaciona em cima das passadeiras, escarra para o chão sonoramente, sanciona as vozes dissonantes, incentiva {pela inoperância} a corrupção, premeia o cinismo, semeia a violência, prega sem praticar e, acima de tudo, vive numa ilusão. Desde que haja títulos {do Tesouro e do Campeonato} na calha tudo está bem, tudo se aceita, e lá se vai fechando o olho. Não se iludam, o Falcão pode ser {e é} um belíssimo jogador, mas Pinto da Costa não é outra coisa senão um Alberto João Jardim. Alberto João Jardim não dignifica o país tal como Pinto da Costa não dignifica o FCP. Hulk pode ser {e é} uma força da natureza, mas Reinaldo Teles não é outra coisa senão um Fernando Ruas. Fernando Ruas não dignifica o país tal como Reinaldo Teles não dignifica o FCP. E a lista {de um lado e doutro} provavelmente continuaria... Portugal continua a não querer ver isto, há um Portugal que teima em desaparecer; tal como a massa adepta do FCP continua a não querer ver isto, há uma cultura portista que teima em persistir. Há um país que parece não querer andar para a frente. O FCP nunca deixou de querer ser esse país. E ambos se afundam numa miséria indescritível. Este vídeo aqui acima faz-me lembrar o vídeo, dirigido aos finlandeses, que há uns tempos inundava os ecrãs {e as almas} lusos. São a mesmíssima coisa. O espelho de um país/clube pequeno e pobre {de espírito}, o retrato de um país/clube que apesar de grandes feitos continua a ser um pequeno, minúsculo mesmo, feitor.

domingo, setembro 12, 2010

Sete dias em solo belga; pequenas notas soltas...



1. Eu gosto do Sol e do céu azul. E de uma banhoca salgada no Atlântico. Mas sempre que vou lá acima sinto sempre que trocava tudo isso por aqueles céus. Ninguém tem aqueles céus da Flandres. Nem aquele fresco, aquela chuvinha. E tudo o que vem por acréscimo.
2. Isto é, os bares, os interiores, o quentinho, as cervejas, os cafés e os chás, os broodjes. As passas, os frutos secos. Os queijos. Os confortos.
3. A qualidade de vida, o luxo de se poder ter calma na vida {eles não se irritam... eles não se desviam... eles não sorriem...}, a certeza de que aquilo funciona {o nível de sofisticação e de eficiência da empresa que alugava bicicletas em Gent era assustador...}. Apesar da qualidade na vida, e dos fenomenais céus!, e embora me tivesse acontecido trocar o nome de uma pelo nome da outra, a Bélgica pouco tem em comum com a Holanda.
4. Os belgas são estranhos. Parecem doentes. Do foro psiquiátrico. Parecem personas divididas. Fendidas. Fracturadas. Não parecem ser capazes da felicidade. E não é do tempo, e da chuva, e do frio... Não, é mesmo outra coisa qualquer lá deles. {E é óbvio que generalizo...}
5. A pedofilia está escancarada diariamente nos jornais. Os bispos, os padres, os cardeais. E as vítimas. Slachtoffers.
6. Também a hipótese da divisão do país em dois inunda as páginas dos diários. Na rua não se sente. Como se tal divisão não fosse nada, comparada com a outra divisão já mencionada...
7. Não me parece que queira voltar à Bélgica. Gent encheu-me as medidas. Muito. Mas sinto que Gent é uma excepção. Bom, talvez, um dia, as Ardenas...
8. Brussel é Brussel. Não presta. {O Museu Magritte não foi mau de todo...}
9. Brugge é Brugge. Um cartão postal. {Dá para passear de bicicleta, o que já não é mau de todo...}
10. A bicicleta está longe de ser considerada e respeitada por todos {mais uma grande diferença em relação ao vizinho de cima}. Mas a liberdade proporcionada por duas rodas, pedais e correias de transmissão está lá. E é divinal. Ó se é.
11. E as cervejas? Bebi uma dúzia delas, mas não explorei ao máximo, nem ao mínimo, a coisa. Não esquecer que fiz férias em família, como pai de família. Conheço tão bem os parques infantis em Gent e arredores como as cervejas belgas em geral. São cerca de 350 variedades. Eu fiquei-me por uma mão cheia delas. Todas boas, algumas especiais. Acima de tudo a Piraat {triple beer, 10 graus, não experimentar beber mais de 3 seguidas...}. A Orval segue-a de perto. A fiel Hoegaarden mantém-se, bom, fiel.
12. O Manteca é o local ideal para uma cerveja, um cigarro e dois dedos de conversa. Tudo embebido em meia-luz e sonoridade jazística. Uma cidade que tem um Manteca tem tudo.
13. As crianças não são só slachtoffers... As crianças até aos 12 anos de idade não pagam comboio, não pagam museus, não pagam isto nem aquilo, em alguns restaurantes até 10% de desconto têm... Sabe bem ver isto posto em prática. Não é condescendente, é responsável e entusiasmante. As crianças belgas têm uma autonomia {assim à primeira vista} muito interessante e intensa.
14. Os gentenaars {a malta do Norte em geral} vivem a cidade de um modo muito especial e intenso. A cidade é deles e eles sabem-no. Cuidam dela e ela cuida deles.
15. Também eles, os belgas, têm o leão rampante! Gosto do leão rampante!

quarta-feira, junho 30, 2010

quarta-feira, junho 09, 2010

Bizarra Fauna }}} White horse



Robin Van Persie {bem ao centro} com a sua turma do liceu. Via Rosa Louca {veel dank}.

sábado, abril 24, 2010

Calhauismos

Não falta gente por aí a atirar pedras. São os juízes, são os jornalistas, é o Papa, é o 25 de Abril, é o PEC, é a Grécia, é a pataqueopôs, são os bloggers de esquerda, e mais os da direita, e os tortos, é o andor, e mais os túneis e a putaqueospariuatodos. Tanta mágoa, tanto rancor, tanto bolor. Tanta gente a achar que, como dizia o caramelo azedo, francês mas azedo, oinfernosãoosoutros. Acreditem, sei do que falo, é tão mais fácil {não é nada, mas era bom que fosse...} vermos o quão fácil é sermos apedrejados... É pá, isto faz lembrar aquela coisa do quemnuncapecouqueatireaprimeirapedra... Mas não tem servido de muito, pois não?

quarta-feira, abril 07, 2010

O futebol...

... é um gajo estranho {para não dizer fodido}.

O que uma mãe tem de ouvir...

:)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Mitos urbanos {#1}

O homem da direita não é o homem da esquerda. O homem da esquerda não é o homem da direita. Metam isto nas vossas cabeças de uma vez por todas. Safa!

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Enough Is More

No dia de hoje, em jeito de despedida e de reencontro, e com as várias crises da crise na ordem do dia, apeteceu-me aproveitar a boleia de Sagmeister e expressar graficamente um aforismo apropriado aos tempos que correm. Partindo da famosa tirada de Mies van der Rohe e seguindo o conselho de Sagmeister {In general I hate the use of quotes by designers – it just seems so lazy.*} resolvi então ter algum trabalho — «Não ser preguiçoso», eis outro aforismo com pés para andar — e deixar-vos com o pensamento mais apropriado aos ares do momento.

{Clicar para visualizar em condições; não sei porquê não estou a conseguir colocar isto em formato maior...}

— * —

Tudo isto porque, neste Natal, o meu cunhado me ofereceu um exemplar do livro Things I Have Learned In My Life So Far, do designer austríaco Stefan Sagmeister. Nestes tempos intermitentes que tenho vivido aqui por casa {if you know what I mean...}, este livro tem proporcionado uma leitura muito agradável. Pois como pequenos livrinhos que são, veiculando simples histórias e aforismos, adaptam-se bem ao meu ritmo actual. Dos vários aforismos patentes no livro apetece-me destacar aqui os seguintes — Everybody Thinks He Is Right. / Worrying Solves Nothing. / Money Does Not Make Me Happy. / Trying To Look Good Limits My Life. / Everything I Do Always Comes Back To Me. / Helping Other People Helps Me. / Everybody Who Is Honest Is Interesting. / Drugs Feel Great In The Beginning And Become a Drag Later On. / Thinking Life Will Be Better In The Future Is Stupid. I Have To Live Now. / Being Not Truthful Always Works Against Me. Mas mais agradável ainda foi constatar que praticamente tudo aquilo que ele foi descobrindo ao longo da sua carreira como designer, também eu o fui descobrindo ao longo destes anos de vida profissional. E não estou a ser imodesto ou a querer comparar-me ao austríaco, que não vale a pena nem uma nem outra. Mas a verdade é que {apesar de quase 10 anos de diferença entre nós} um paralelo existe, pois em 1991 eu arrancava mais ou menos a sério com a minha vida profissional {cof... cof...} e Sagmeister voava para Hong Kong a fim de iniciar uma carreira fulgurante; ainda conservo o exemplar da Print, dessa altura, em que era apresentado o seu notável trabalho para um congresso de oftalmologistas.... No fundo, a questão é que a leitura das suas descobertas {e a constatação da pouca surpresa da minha parte} deu-me a ver que também eu tenho estado a aprender, não tenho estado parado. A grande questão é que, no matter what, a vida está lá sempre, pronta a desvelar-se perante nós e a nossa vontade de crescer. A inegável questão é que, quer no Oriente (rodeado de dinheiro, massa crítica e oportunidades), quer junto ao Miradouro de Santa Luzia (rodeado de mofo e humidade), a oportunidade de crescer e ver um pouco mais além é sempre possível ao ser humano. Esse potencial não tem sido desbaratado nem em Sagmeister, nem em mim, nem em tantos outros. E isso é sempre bom constatar. Como tal, um bom 2009 para todos vós, seres humanos em crescimento!


* Até aqui o tipo é bom. A quantidade de vezes que ele já deve ter sido citado neste particular...

sábado, junho 14, 2008

Alexandre Andrade dixit, parte 2

«PORQUE NÃO APOIO A SELECÇÃO (2): Porque é comandada por um homem sem carácter. Agredir um membro de uma equipa adversária, em directo, e perante milhões de telespectadores, é já de si uma atitude extremamente condenável, e que levaria a despedimento com justa causa em quase todos os sectores profissionais. Negar o sucedido, não dar mostras de arrependimento, minimizar a gravidade do caso por meio de um punhado de trôpegas justificações, e apenas se desculpar muito mais tarde, e ainda por cima claramente a contragosto, eis o que define um perfil moral muito rasteirinho. A cereja em cima do bolo foi o recurso apresentado após uma sanção que só pecou por brandura, recurso apoiado pela Federação e inexplicavelmente acatado pela UEFA. Todo o país ficou a saber que ao seleccionador da equipa nacional de futebol tudo se desculpa. Não deveria ser assim, Trata-se de um cargo principescamente remunerado, com elevada exposição mediática e que acarreta responsabilidades de representação do país. A tolerância para prevaricações e comportamentos de arruaceiro deveria ser menor do que num cargo normal, e não maior.
Scolari é um grande treinador; isso não contesto. [eu aqui tenho de contestar...] Acho bastante graça àqueles que tentam relativizar o seu brilhante currículo por meio de golpes de rins argumentativos que fariam inveja aos sofistas da antiguidade. Porém, ser um grande treinador não chega.»




Chamo igualmente a atenção para um outro texto do Alexandre em relação ao sururu causado por uma afirmação de Lukas Podolski sobre como «o futebol é como o xadrez, mas sem os dados». Ao que parece Podolski detém mais do que aquela dose de inteligência que estamos geralmente dispostos a querer reconhecer num jogador de futebol. Só pode ser por estarmos mal habituados... Mas esquecemo-nos que lá para cima os tempos, os climas, os governos, os mercados, os camionistas, enfim, os jogadores são outros. Isto fez-me lembrar umas citações muito interessantes {que aqui postei há uns tempos atrás} sobre o papel do raciocínio no futebol holandês. E faz-me lembrar, claro, o belíssimo jogo de hoje frente à França {tal como a anterior frente à Itália} onde se pôde ver na prática estas linhas de Auke Kok – «The good player is the player who touches the ball only once. And knows where to run.»

sábado, maio 24, 2008

A ficção realizada ou a realidade ficcionada...

Já todos reparámos, já todos sabemos, com mais ou menos pormenor, já todos arrepiámos um pouco a espinha, e por aí andamos de cabeça perdida, coração nas mãos, entre a Maddie e a Kampush, e já foi em tempos a Joana e agora é uma menina de Torres Novas, e quando julgávamos que o fundo era negro mas estava tocado, eis que não, agora surgem os Fritzl, sim são vários, são eles todos, não se trata apenas daquele velho que nos enche o primetime, ó morbidez das morbidezes!... E tudo a olhar para a Escola, para o Estado, para a Igreja, para os Media... para algo que nos devolva um passado que julgamos ter sido possível, um passado do qual não temos memória. Porque se tivéssemos saberíamos que esse passado não existe, não existiu, esse estado puro de existência não se cumpriu nunca. Porque há, desde sempre, Homem; porque há, desde sempre, Família. E nós sempre a olhar para fora, quando devíamos olhar era para dentro; ou para o lado (dentro) da família. São inumeráveis as parábolas, fábulas, adágios, enigmas, que nos remetem sempre para o mesmo: a resposta a um problema reside no problema. Os olhos deviam era repousar na Família... e na Literatura, já agora. Como se comprova neste notável artigo de Ritchie Robertson saído recentemente no TLS {pode ser lido online aqui}. Que anda tudo na Família já não tinha grandes dúvidas... não vai dar sempre num pai, num tio, numa madrasta? Mas que a Literatura, não tão recuada assim no tempo, austríaca era tão fértil em crianças aprisionadas em celas, casas dispersas, agressões "naturais", dependências e torturas várias, you name it... e a Kampush e os Fritzl voltam-nos novamente à memória. Este artigo é mesmo muito interessante. Não restam dúvidas que devemos olhar com muito mais atenção para o que andamos a fazer com as nossas famílias, com os nossos pares, ascendentes e descendentes, e não procurarmos as respostas onde elas não estão; ah, e claro, ler mais, muito mais... Literatura {e não aquelas coisas que de cor-de-rosa têm muito pouco...}

sábado, abril 05, 2008

Campeões?

No Dragão já se ganha por 2 e já se canta, em uníssono (ou quase, que sempre há gente civilizada...), «SLB, SLB, SLB, Filhos da Puta, SLB». Bonito, não haja dúvida!

sexta-feira, março 28, 2008

Só uma perguntinha...

Por que raio ninguém relaciona a avaliação dos professores com o episódio do telemóvel? O caricato episódio despoletou paleio de todos os formatos e feitios, oriundo de todos os quadrantes, mas em lado algum (os lados onde fui, claro; não estou em todo o lado..) ouvi fosse quem fosse relançar de novo a questão da avaliação dos professores. Bizarro. A mim parece-me mais do que evidente que este episódio só vem provar a necessidade da mesma e, em especial, a avaliação dentro da sala de aulas (logo a primeira medida a ir ao ar...). Mas nem a ministra, nem o primeiro-ministro, nem os socráticos estão a aproveitar a deixa. Porque será? Desistiram? Pois, já prometeram baixar o IVA, o resto que se lixe. É pena.

sábado, março 22, 2008

A Educação em retalhos...

Voltando ainda ao tempo passado (sabem?, o tempo do «no meu tempo é que era bom») versus tempo presente, esse combate sem tréguas, estou cá em crer que o problema mesmo não é as coisas já não serem como foram. Não, o grande problema é as coisas ainda serem, numa enorme parte, como foram. Isto quando o resto já não é. O país de hoje já não é o país de quando eu tinha 10 anos, muito menos o país de quando o ilustre Doutor Lobo Antunes tinha 10 aninhos (naquela altura devia ser assim que se dizia...). Os miúdos, os adolescentes, são uma outra coisa hoje, mas os métodos, as ideias, as abordagens, os textos são, mais coisa menos coisa, os mesmos.
Fiquemo-nos pelos textos. A minha filha (a frequentar a 3.ª classe) ainda hoje tem de resolver problemas de matemática com o mesmo palavreado que aqueles que eu resolvi há cerca de 30 anos atrás. Justificar-se-á tal coisa? Não creio. A semana passada, ao reunir com a professora dela devido ao final do 2.º período, ao rever a prova de matemática, deparei-me com um problema que utilizava o termo "retalho" (que é como quem diz "parte", "pedaço", "fracção"). Lembram-se, certamente, dos exercícios em volta das fracções, tipo "a Dona Maria tinha uma peça de tecido e dela retirou três retalhos...". Ao ler aquela palavra, ali no meio de um enunciado de um problema de matemática, vieram-me à flor da pele, assolaram-me a nuca, mil e uma sensações passadas. Ali, num instante, cheirei o oleado da minha escola primária, esfolei-me de novo no recreio em cimento, provavelmente até nauseei com lembranças de frango na panela... mas, acima de tudo, estranhei novamente a palavra. Retalho. «Porra, ainda?», pensei. E comentei o sucedido com a professora. Ao que ela me respondeu com um «engraçado, os miúdos também estranham a palavra, até me pedem para dar sinónimos, que eu entretanto escrevo no quadro». Não são parvos estes miúdos. Tal como eu estranhei (e, pelos vistos, entranhei) também eles estranham a palavra "retalho" no meio de enunciado de matemática. É que não ajuda em nada, mesmo nada. É que, convenhamos, "retalho" é muito António "ó Evaristo" Silva, não é? Se para mim, que tenho 30 e tais a caminho dos 40, o Pátio das Cantigas já foi a custo que se tolerou, imaginem então o que será para crianças que ouvem Nelly Furtado na PSP enquanto desenham no chão da sala a pensar na vida em geral. Não em retalhos...

«O que é preciso são dois ou três salazares... um de cada cor, de preferência»

Ainda a propósito da professora de francês e do mais recente debate sobre o estado da educação nacional que este episódio despertou, e em particular em relação ao argumento tantas vezes ouvido (nesta e noutras situações) de «que no meu tempo é que era bom», «antes sim, havia respeito», «eu tinha respeito e admiração pelos meus professores», e por aí fora, só dá mesmo vontade de perguntar, assim à laia de provocaçãozinha — MAS ENTÃO SE NO VOSSO TEMPO ERA TUDO TÃO BOM, TUDO TÃO CERTINHO, E TUDO TÃO DEDICADO AO ESTUDO E À APRENDIZAGEM DA VIDA EM SOCIEDADE, E SE, COMO SABEMOS, SÃO VOCÊS QUE ESTÃO NO PODER, A LEGISLAR, A CRIAR EMPRESAS, A FAZER LIVROS, A CONTRATAR CHEFES ALEMÃES PARA GERIR AS VOSSA ESTRELAS MICHELIN, A COMANDAR HOSPITAIS E UNIVERSIDADES, A LEVAR O PAÍS PARA A FRENTE, ENTÃO PORQUE É QUE ISTO ESTÁ TÃO MAL? ISTO NÃO DEVIA ESTAR ESPECTACULAR?!?! SE ESTA ESCOLA ONDE ESTA PROFESSORA SE DEIXOU TOLAMENTE DESAFIAR FOI FEITA POR VÓS E É RESULTADO DA VOSSA GERAÇÃO ONDE FICA O «NO NOSSO TEMPO É QUE ERA BOM»? POIS... SE ISTO ESTÁ UMA MERDA A ALGUÉM SE DEVE...

Serve a provocaçãozinha apenas para demonstrar o quão ridículo e desnecessário é o argumento «no meu tempo é que era bom». O agora é que interessa, não o ontem, nem o amanhã, meus senhores. E, agora, constata-se, o que vocês sabem adiantar é que no vosso tempo é que era bom. Pois não chega. Ou fazem algo ou se calam.

sexta-feira, março 21, 2008

Esta professora já está a ser avaliada... da pior maneira, é verdade, mas está a sê-lo...

Espero sinceramente que o bigodes da Fenprof perceba de uma vez por todas o erro que cometeu ao iniciar toda esta campanha (leia-se trapalhada) contra a ministra. Agora não há ninguém que não fale na necessidade de tomar medidas. Há uns meses atrás ninguém queria ouvir falar das ditas. E aquela que parecia ser uma (primeira) grande vitória dos professores vai revelar-se (e este episódio só vem prová-lo) um fiasco redondo. Falo da avaliação dentro da sala de aula. Fizeram tudo, deram tudo, para que a avaliação dentro da sala de aula caísse. Conseguiram-no, aparentemente. O que o bigodes exultante nunca imaginou é que a avaliação dentro da sala de aula surgisse deste modo... Eu pergunto-me, não teria sido melhor deixar a avaliação dos professores aos professores? Em vez de a termos assim exposta à vista de todos e em termos nada interessantes? Uma coisa quando tem de ser avaliada será avaliada, custe o que custar... disso não tenham dúvidas.


Mas triste, triste, mesmo triste, assim mesmo triste como não há mais triste, lamentável, de envergonhar qualquer um foi o facto de nem um rapaz ter feito fosse o que fosse para separar a colega histérica (sim, todos podemos bloquear um dia; queimar a miúda é o caminho mais fácil) e a tonta da professora (sim, não passa de uma tonta e já devia há muito ter sido avaliada...) naquela sala de aula. Nem um rapaz! Apenas as miúdas se mexeram e agiram. Isto, sim, é preocupante. E uma vez mais eu pergunto: onde andam os pais? Eu tinha vergonha de ser pai de um dos alunos colegas daquela miúda, ai tinha, tinha.

domingo, março 09, 2008

Grrrr....Serenity Now!

Eu bem sei que estou raivoso... Não é caso para menos... Bom, é sempre caso para menos, para não estar raivoso... Mas eu estou... Mas como estou e não quero estar (já basta de gente raivosa por estes dias), vou então para ali (parece que tenho um candeeiro para montar...) respirar um pouquinho. E vou a pensar nestas belas e sábias palavras do camarada Alvim, deixadas como comentário a um post recente: «A única coisa que me parece é que este país precisa de educação porque, se Portugal não precisa, o resto do mundo precisa de portugueses educados». Nem mais.