sexta-feira, junho 01, 2012

As minhas rótulas não querem ir para Campinas


Há sensivelmente um mês que os meus joelhos me doem. Me deixam mal. Faço gelo quando me lembro, dou-lhes com o duche gelado quando tenho coragem. Mas não doem sempre. Nem a todo o momento. Se corro na praia a toda a brida, fugindo à Matilde, não se queixam, não me derrubam, deixam-me ser feliz. Mas se ando, por aí, no dia-a-dia, a descer escadas, a subi-las, ir às compras, busca a Júlia, faz a janta, bom, aí, é só sinais, arrepios, guinadas.

*

Ontem à noite levei um tiro numa rótula. Sonhava... Sim, foi do "outro lado", mas foi duro. Não me lembro se era a esquerda, ou se era a direita. Lembro-me, sim, que sofri com a coisa, não foi agradável. Mas, por estranho que pareça {ou talvez não}, também não foi totalmente desagradável. Quando uma coisa tem um propósito não pode ser desagradável. Desagradável será sempre o tempo que demoramos até descortinar/ler/assimilar o dito propósito...

*

Uma coisa sei. O tiro vinha com sotaque brasileiro, o ambiente geral era tropical, a bala foi disparada por um moleque desavindo com a vida. Até tive direito a sorriso e dichote maliciosos, logo após o disparo. Não me lembro da frase textualmente, mas creio que a ideia não deve andar longe disto: algo em mim resiste em andar. Melhor posto. As minhas rótulas não querem ir para Campinas.

*

Elas sabem lá o que querem {poderemos pensar}. Mas eu sei o que quero. E ninguém {eu, aqui, caramba, oi, me escuta, aqui!} me ouve. Só me resta falar comigo mesmo, através delas. Há que estar atento, companheiro. A grande verdade é que quando corro na praia não penso onde será a repartição das Finanças em Campinas. Nem quanto custará um litro de leite no Brasil. Por outro lado, enquanto espero numa qualquer fila de supermercado, tenho tempo para isso. E não o desperdiço. Enquanto subo as escadas até lá acima {sempre são 4 andares sem elevador...}, mesmo sem dar por ela, estou a pensar se devo optar por casa ou apartamento, se deve ser com ou sem condomínio, se Barão Geraldo será ou não uma boa opção.

*

Se a minha rica mãe me estivesse a ouvir neste preciso momento, não duvido que diria algo deste género: o importante é estar na fila do supermercado com o mesmo espírito de felicidade, com o mesmo coração aberto, com a mesma consciência, como quando corremos na praia, rindo com uma filha. Na praia como no supermercado, em Lisboa como em Campinas, em Campo de Ourique como em Barão Geraldo. Sempre atento. Sempre vivo. Sempre aberto ao que aí vem. Se ela me dissesse algo como isto isto, eu acenaria, concordaria, sorriria. Até acrescentaria um «que interessante!».

*

Tenho de ir contar tudo isto às minhas rótulas...

Faltam 7 dias...


Primeira internacionalização (frente à Eslovénia) de Ibrahim Affelay, Março de 2007.

Golo de "Ibi" Affelay no último jogo da Holanda (frente à Eslováquia), Maio de 2012.

quinta-feira, maio 31, 2012

quarta-feira, maio 30, 2012

segunda-feira, maio 28, 2012

Russell Allen Phillips



«For unknown reasons, he wore one pant leg markedly shorter than the other. He had a tidy, pleasant, boyish face that tended to blend with the scenery. This probably contributed to his invisibility, but what really did it was his silence.»

{ via }

Faltam 11 dias...


{Fotografia de Hans van der Meer}

domingo, maio 27, 2012

quinta-feira, maio 24, 2012

The Membranes



















{Um grande agradecimento ao João Peste por um belo dia, nos finais dos anos 80, ter trazido estes tipos ao RRV. Jamais esquecerei.}

Faltam 15 dias...


{Fotografia de Hans van der Meer}

quarta-feira, maio 23, 2012

segunda-feira, maio 21, 2012

quinta-feira, maio 10, 2012

{PUB}



Já aqui vos disse que a The Blizzard é do melhor que há? Ah, ok, pois, para aí umas mil vezes... Mas não desisto. Ao fim de um ano de existência, continua de uma qualidade absurda. Assinem a revista ou comprem números avulsos, vale todos os pennies que lá deixarem (e se for edição electrónica, até só pagam o que quiserem!). Toda a ajuda é enorme para Jonathan Wilson e seus colaboradores. Todo o prazer é nosso.

segunda-feira, maio 07, 2012

Ainda o Pingo Doce...



Existe uma grande diferença entre condição e situação. Ao contrário do que pensa Pacheco Pereira*, aqueles portugueses que ali foram {porque foram, ninguém os obrigou}, que ali se sujeitaram {ao tempo, ao stress, à fome, à agitação, ao desespero; apesar de tudo, coisas muito distantes da humilhação, do espezinhamento, da agressão que tantos propalaram}, não sentiam {se sentiam; quando sentiam} vergonha da sua condição, antes da sua situação. A vergonha estava ali, com eles, de mão dada, ombro a ombro com a vergonha do vizinho. A vergonha é só mais um, no meio da maralha. E assim perde peso, não conta verdadeiramente. A vergonha não é para aqui chamada. Os portugueses são, no fundo, desavergonhados. Porque ignorantes, em geral. A vergonha de uma condição é resultado de inteligência, de análise, de ponderação, de discussão aos mais vários níveis. A vergonha de uma condição é um acto heróico, difícil para caraças, coisa rara. A vergonha de uma situação é a consequência do dia-a-dia, é assim mesmo, calha a todos {ainda ontem me tocou a mim...}. Aqueles portugueses ali, à espera do bónus de 50%, continuam a ser os mesmos toscos do costume, aqueles que acham que vivem no melhor dos países, que não há povo melhor. Lisboa é linda. E faz bom tempo. E que somos amáveis. Podemos ser porcos, ignorantes, broncos e não ter absolutamente nenhum respeito por nós mesmos, mas... Ai, este mas. Isto, sim, é uma condição. E aqui não há vergonha que leve a melhor. Há muito tempo que assim é, e cheira-me que por muito tempo assim será. Com crise, ou sem crise.

Mas, então, e a violência? E a polícia {a "tropa de choque", como dizia Daniel Oliveira...; meu Deus em que mundo vive a criatura?}, não foi chamada? E a confusão? O caos? Não contam? Primeiro, vimos o que nos mostraram. E o que quisemos ver do que nos mostraram. Segundo, o caos, não duvidemos, é apenas resultado {uma vez mais, e quantas mais daqui para a frente...} da junção da má organização e gestão de um evento {por parte do Pingo Doce} com a ignorância generalizada e a incapacidade de ler as situações {por parte da populaça}. É tão simples. É que é mesmo. Não vimos já isto na ponte, a caminho das praias? No Chiado, a caminho sabe-se lá do quê? Na Expo'98? Na Feira do Livro?

E por falar em livros. O que fazer em relação a um outro argumento tão abordado, aqui e ali, de que uma coisa é tolerar este tipo de situações por causa de comida e outra é tolerá-las por "cultura". Que uma coisa é sujeitar-mo-nos a uma fila para consumir livros na Feira/música no Pavilhão/gelado no Santini/iPad na Fnac e que outra coisa é fazer bicha no Pingo Doce para ter óleo de fritar a metade do preço. Bom, não é verdade. É tudo a mesma coisa. É consumo. Qual cultura, qual bens de primeira necessidade. É consumo. É identidade. É prazer. É «eu estive lá». Cheira-me que isto é o que verdadeiramente chocou tanta gente. Foi perceber que não há grandes diferenças {ui, olhai a vergonha a surgir...} entre uma coisa e outra, entre uns e outros. E só uma questão de grau. E que a liberdade de cada um gastar o seu tempo, o seu dinheiro, a sua vergonha, onde quiser, quando quiser e em que fila quiser é um direito valioso. E que uns não são mais desgraçados, por escolherem uma fila, nem os outros mais afortunados, por escolherem outra bicha. Bela lição, sim senhor.

Bom, mas e então o dumping? E o respeito pela lei? Nas conversas, consoante os argumentos vão fraquejando, parece-me que se chega sempre a este ponto. Se este é o ponto {e eu até acho que é}, então que se discuta logo este ponto. Esqueçam lá o lumpen e dediquem-se ao dumping. Há muito tempo que estes senhores praticam as maiores barbaridades, há muito tempo que é sabido que o meio ambiente do retalho/atacado/grossista/distribuição é do mais insalubre que existe, há muito tempo que é sabido que os produtores são verdadeiros escravos nesta máquina infernal. Falemos disto, pois. Mas hoje, e amanhã, e depois. Não apenas quando o Pingo Doce decide "dar" uma borla de 50%.


* E não só pensa como se regala, num exercício de onanismo dos mais bizarros a que tenho assistido recentemente. Os seus olhinhos sábios até brilhavam de tanto prazer ao descrever a "suposta" miséria dos outros...

quinta-feira, maio 03, 2012

segunda-feira, abril 23, 2012