segunda-feira, outubro 22, 2007

State Legislature

Hoje pude ver o documentário State Legislature (2007) de Frederick Wiseman. São 3 horas e meia (de 160 filmadas!) de puro deleite legislativo. ?!?! Tal coisa é possível? Então não é! Para mim, que sou grande fã da ARTV (e quem me conhece e/ou por aqui passa sabe que je plaisante pas), é mesmo uma delícia, uma ARTV de luxo. Wiseman, como sempre faz, "apenas" se limita a deslizar perante os seus objectos, e os objectos dos seus objectos, e, como sempre faz, deixa-nos mais ricos. Ver como o corpo legislativo do estado norte-americano de Idaho se desenrola dia após dia (três meses por ano, que nos outros nove cada um vai à sua vida...) é uma experiência e tanto. Aqui há uns tempos falei aqui da experiência que é assistir à construção de Portugal (uma de múltiplas, para ser mais correcto), pois hoje assisti um pouco àquilo que é a construção do Idaho e, por tabela, desse país tão rico quanto estranho que dá pelo nome de EUA. Wiseman no seu melhor! Sério candidato ao melhor documentário (por mim visto) no DocLisboa 2007.


sábado, outubro 20, 2007

A vida é isto mesmo...

... se há dois dias vi um documentário à maneira, ontem vi uma verdadeira banhada. Nuns dias chove, noutros faz sol. Tudo bem. Mas este era mesmo mau. Tão mau que acabei por fazer algo que raramente faço, isto é, saí a meio. Gosto de acreditar que tenho uma capacidade de aguentar maus filmes (e já vi tantos, meu Deus...), que por muito maus que sejam fico até ao fim, não tanto numa de "esperança é a última a morrer" mas mais numa de "a vida é isto mesmo". Mas tenho de dizê-lo, este não era só mau. Este documentário era desonesto (e não há pior que um documentário desonesto). E isso para mim foi fatal e preferi matá-lo logo do que arrastar-me juntamente com ele.
Falo de On Hitler's Highway de Lech Kowalski. Um filme que teve direito a duas projecções, ambas esgotadas. Um filme integrado numa secção do festival dedicada exclusivamente a Lech Kowalski. Um filme importante, portanto.

Partindo de uma história com um enorme potencial, o documentário acaba por ser o assassinato da mesma. Tanto Hitler como a auto-estrada apenas moram no título. O resto, o filme em si, é Kowalski, Kowalski, Kowalski. Me, me, me. O que para mim (mas gostos discutem-se) é crime grave em documentário. Filmado à mão, irritantemente, mas isso é estilo (e estilos também se discutem), o filme transporta-nos ao longo da auto-estrada (contruída pelos trabalhadores polacos escravizados pela Alemanha nazi) que o exército alemão desenhou para a sua expansão em direcção ao Leste. A mesma auto-estrada que ainda hoje lá se mantém, remendada, estafada, repleta (nas bermas e apeadeiros) de indigentes, deslocados e prostitutas. E Kowalski lá vai filmando e inquirindo os indivíduos sobre uma auto-estrada que ele próprio não estudou (não acredito que o tenha feito; a parte sobre as pontes é sintomática disso). E lá vai falando da guerra passada e das marcas que ainda hoje perduram, enquanto nos mostra uma mata poluída (chega ao ponto de fazer close-ups a preservativos usados!), uma mata poluída! Mas o gajo é parvo?! E depois pára, perdurando, pateticamente, numa zona onde algumas prostitutas descansam e dão à língua. Numa cena (a que me fez levantar e sair) Kowalski está à conversa com umas tantas prostitutas e uma delas pede-lhe que páre de filmar (uma outra estava a emocionar-se demais ou algo parecido) e ele afirma que sim, desce a câmara, não pára (a cena não tem corte), levanta-a de novo e prossegue com a filmagem. Mais desonestidade não há. Mesmo que, posteriormente, tenha falado com elas e tenha obtido a sua permissão, o corte tinha de lá estar. Isto não é crime grave em documentário, é crime capital. Levantei-me e fui-me embora.

Terça-feira que vem tenho mais Kowalski para ver. Mas como o tema é a bola, mais propriamente a final do Campeonato do Mundo de 2006 (o jogo da cabeçada de Zidane), deve ser mais easy going. Será?

Agradecimento

Em dia de aniversário só posso considerar isto como uma prenda. Muito amavelmente Mário Moura, do The Ressabiator, incluiu o Anauel no seu blogroll. Fica aqui expresso o meu agradecimento. Tendo a perfeita noção de como o Anauel foge, não raras vezes, às balizas temáticas do The Ressabiator isto só me faz sentir ainda mais contente. Não tanto pelo blogroll em si, mas mais pelo confirmar de um reconhecimento mútuo. Obrigado.

1 Ano

4.275 visitas
...455 posts
...365 dias
.....36 labels
.....20 visitas (em média) por dia
.....18 dias seguidos sem comentários
.....17 links externos apontam para Anauel
.......8 de authority (no Technorati)
.......8 número máximo de comentários a um post (este)
.......3,37 minutos (em média) por visita

A leitura correcta destes números, no que diz respeito à análise da performance de um blog, não sei bem qual seja. Serão muitas certamente, e de acordo com as pretensões de cada um. Por mim, sei que reflectem um ano de gozo e de entrega. Um ano de exposição contínua. [Esta cena dos blogs é mesmo coisa de voyeurs/exibicionistas...] Regozijo-me com o n.º de visitas e com o tempo médio de leitura e trepo às paredes com o reduzido n.º de comentários. Porra, isto é um café, conversemos pois.

Quanto aos factos abaixo descritos, bem, esses são de leitura fácil. A ver.

weirdest referralfist fucking
melhor período de postagem – 1 do 7 a 16 do 8 (período Brasil)
o post que mais gozo me deu escrever – este, ou talvez este
o post que mais me custou escrever – este, ou talvez este
o post mais bizarro/codificado – este
blogger mais simpática – a Zazie do Cocanha (uma vez mais obrigado)
blog que mais saudades deixou – Lida Insana
blogs que continuam presentes – ver blogroll
blog onde mais comentários deixei (e isto fala por si) – este e este

O Anauel tem blogs irmãos (nascidos na mesma altura, mas não gémeos). Este cumpre a sua missão intemporal. Este arrancou quase um ano depois, espero não perder o gás e desejo sinceramente que venha a crescer. E este, meu Deus, que dor de alma, um ano volvido e nem um e-mail... Ó tristeza das tristezas... Bem, tenho de admitir que este é um pouco doido, para não dizer absurdo, mas, pô, loucos é que que não falta para aí...

Suspenso para Balanço

(...)

God is an Astronaut

Santiago Alquimista
God Is An Astronaut
All Star Project (1.ª parte)

Ontem à noite os God Is An Astronaut abriram o concerto assim:



com o "Tempus Horizon" (do + recente álbum Far From Refuge) acompanhado visualmente por archive footage do Project Excelsior e dessa fantástica personagem que foi Joseph Kittinger (mas onde é que eu já vi isto?; ah, pois, foi aqui). A ideia já foi utilizada (e melhor, na minha opinião)? Já. Está um pouco forçado? Sim. Mas o pessoal perdoa e parte do princípio que é propositado e não mero pseudoplágio... A realidade é que funciona sempre. Daí em diante tocaram o álbum novo e "velhas" pérolas. Como este "From Dusk To The Beyond" (do álbum de 2002 The End of the Beggining).



Sempre bem tocado, sempre com imagens de arquivo por detrás deles e sempre a oscilar entre o ambiental e o headbang total. Não desiludiram nada e provaram mesmo serem melhores ao vivo do que em disco. E aqui confesso que até nem são uma das minhas bandas favoritas (por vezes é demasiado perfeitinho, if you know what I mean...), mas a míngua é tanta (sim, que os Pelican já foram há uma eternidade...) que um gajo vai a todas... (e para quando os Red Sparowes?!?!?!). Foram óptimos, em suma, profissionais até dizer chega, o som estava baril e o meu corpo diz-me hoje que a onda, embora um tanto ou quanto flat (f*cking emos! lol), se dependesse de mim (ah, tivesse eu menos 20 anos...), levantaria salpicos... Headbanging rules!

Quanto aos putos de Leiria, esses começaram assim:



E permitam-se-me algumas notas. Primeiro sugiro que deixem de ouvir/admirar tanto Red Sparowes e concentrem-se mais na parte da thrashalhada; abandonem os interlúdios com as guitarrinhas líricas e melódicas (deixem isso para quem sabe) e toca a abrir (que isso, sim, os TASP fazem-no bem). // Não bebam (e nunca por palhinhas!) entre os temas, dá cabo da encenação por completo. O modo como corriam para os copos era confrangedor... Nervos? Acredito. // Grande baixista (Paco) e grandes linhas melódicas. // Notável o tema com que acabaram o concerto! (se exceptuarmos a parte inicial que, e lá vamos nós, mais parecia um ensaio dos Red Sparowes). Bocas foleiras à parte The All Star Project promete!



Já fiz muitas coisas sozinho, mas no que concerne a concertos acho que ontem foi a primeira vez. Down: a seca que se leva enquanto se espera por um concerto em atraso. Up: temos tempo e disposição para observar cenas que nunca veríamos caso estivéssemos acompanhados. Por exemplo: o momento, entre actuações, em que reparei no baterista Velásquez, dos TASP (enquanto desmontava a sua bateria), a olhar, perfeitamente embevecido, para o baterista Loyd, dos GIAA (enquanto montava a sua). O aprendiz e o feiticeiro! Cool.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Heftig og begeistret...

... que é como quem diz Capitão Iglo em norueguês. Fora de brincadeira, parece que é o maior sucesso de bilheteira na Noruega, um verdadeiro filme de culto lá para aqueles lados, e percebe-se porquê. Bem no meio do círculo polar árctico, na aldeia de Berlevåg, numa pequena comunidade que definha juntamente com a indústria local de filetes (!) existe um grupo de homens barbudos que resiste e que afirma a pés juntos que a melhor coisa que lhes aconteceu foi ir ali parar, e ficar. Para além da neve, do frio, do mar gelado, da cerveja e dos ternurentos desejos sexuais que vão, aqui e ali, exprimindo, o que os prende acima de tudo àquela terra? A música, o coro local! Homens feitos, viúvos, separados, mesmo muito velhos alguns (um já tinha mesmo assistido à morte de um grupo coral inteiro...), ex-drogados, recém-casados, ex(?)-comunistas, casanovas na reforma, todos unidos pela música e cantando, sob a batuta de um maestro em cadeira de rodas, nos locais mais inóspitos e inesperados. Estes são os homens (que mulheres só para cobiçar e assistir) que Knut Erik Jensen filmou em 2000 e com quem eu, em 2007, me diverti hoje à tarde. É isto (também) a globalização. É isto a massificação dos suportes e das maquinarias e dos circuitos culturais. E isso é bom. É bom estar no cinema Londres a consumir um pouquinho de Berlevåg.

Heftig og begeistret (Cool and Crazy), Knut Erik Jensen, 2000.















E tudo isto me faz recordar o meu amigo Mattis. Será que ele por aqui passa? Espero que esteja tudo bem com ele lá pelos states.

E já tenho bilhete para o...

ZIDANE !!!


Banda sonora a cargo dos Mogwai!

ZOO(filia)

Já passou um dia (da abertura do DocLisboa), continuo sem olhar para a programação como deve ser, se calhar até já nem há bilhetes para o Zidane, mas uma coisa eu sei, é que já perdi um dos mais bizarros e, provavelmente, interessantes documentários que por aqui vão passar. Trata-se de ZOO. Não deixa de ser curioso como o IMDB, na página dedicada a ZOO, recomenda aos espectadores de ZOO o visionamento de Cruising (aqui abordado há uns dias atrás) e Twin Peaks, Fire Walk With Me... olha que três.

«Na madrugada do dia 2 de Julho de 2005, um homem moribundo foi
deixado nas urgências de um hospital numa zona rural dos Estados
Unidos. Tendo identificado a matrícula do carro que o deixou no hospital
através de uma câmara de vigilância, a polícia seguiu a pista até uma
quinta onde foram descobertas centenas de cassettes de vídeo mostrando
homens de todo o mundo fazendo sexo com puros-sangue
árabes. A causa da morte do homem foi um cólon perfurado. Alvo de
uma cobertura mediática sensacionalista, o caso foi abordado por
Robinson Devor de maneira completamente diferente. "Zoo" adopta
a perspectiva dos homens que frequentavam a quinta e obriga-nos a
reflectir sobre os limites da perversão que estamos dispostos a tolerar
nos outros.» (retirado do programa do DocLisboa)

Architecture influences behavior; it does not determine it.

Como sempre, o blog Architectures of Control continua do melhor. Desta vez Dan Lockton faz uma recensão do artigo "Architecture as Crime Control", de Neal Katyal, publicado há uns anos no Yale Law Journal. Deixo aqui o resumo do artigo, embora o texto de Dan Lockton valha, ele todo, a pena.

Building on work in architectural theory, Professor Katyal demonstrates how attention to cities, neighborhoods, and individual buildings can reduce criminal activity. The field of cyberlaw has been transformed by the insight that architecture can regulate behavior in cyberspace; Professor Katyal applies this insight to the regulation of behavior in real space. The instinct of many attorneys is to focus on criminal law as the dominant method of social control without recognizing physical constraints--constraints that are sometimes even shaped by civil law. Ironically, even an architectural problem in crime control--broken windows--has prompted legal, not architectural, solutions. The Article considers four architectural concepts: increasing an area's natural surveillance, introducing territoriality, reducing social isolation, and protecting potential targets. These mechanisms work in subtle, often invisible, ways to deter criminal activity and, if employed properly, could stymie the need for architectural self-help solutions that are often counterproductive because they increase overall crime rates.
Professor Katyal then illustrates specific legal mechanisms that harness the power of architecture to prevent crime. Distinguishing situations where the government acts as a builder, as a civil regulator, and as a criminal enforcer, the Article suggests solutions in a variety of legal fields, drawing on property, torts, taxation, contracts, and criminal law. Procurement and taxation strategies can promote effective public architecture; crime impact statements, zoning, tort suits, and contractual regulation may engender private architectural solutions as well. Criminal law, particularly through forfeiture, may also play a role. Several problems with architectural regulation are considered, such as the extension of social control and potential losses in privacy. Professor Katyal concludes by suggesting that local jurisdictions devote more attention to architecture as a constraint on crime instead of putting additional resources toward conventional law enforcement.


E destaco esta deliciosa sugestão de Katyal de como a simples adição de um arco a uma zona residencial pode mudar os comportamentos de quem não lá reside. Isto é, dos indesejados. Porque a arquitectura, embora não determine, influencia os comportamentos. Não o esqueçamos.

Nunca é demais lembrar...

... a pena de morte é inumana! É cruel, atroz e só acrescenta tormenta à tormenta.

quinta-feira, outubro 18, 2007

DocLisboa 2007

Começa hoje mais um Festival Internacional de Cinema Documental, vulgo DocLisboa. Vão ser 10 dias de documentários para todos os gostos e feitios. A não perder. Ainda não olhei atentadamente a programação, mas já vi que vão passar o Zidane de Michael Gordon e Philippe Parreno. Lá estarei. Se conseguir bilhetes...

quarta-feira, outubro 17, 2007

Glorioso

Hoje a Selecção Nacional joga com o Cazaquistão. Trata-se de um jogo importante. Tipo mata-mata (para usar uma expressão tão cara ao "pacífico" seleccionador). Mas qual o tema de capa dos três diários desportivos? Ah, pois. Tá tudo dito.

E, já agora, se o seleccionador diz (meio a brincar, li algures; o tipo é um brincalhão) que quase é capaz de comunicar por telepatia com Flávio "Murtosa" Teixeira e que este, que o substitui nestes tempos difíceis, é tão bom quanto ele a dirigir a equipa, porque não despedir Scolari duma vez por todas e pagar, quiçá, 10 vezes menos ao Murtosa? Poupavam-se uns trocos e, talvez, umas vergonhas...

segunda-feira, outubro 15, 2007

Nossa Senhora Deolinda

No fim-de-semana que passou a Deolinda voltou a pisar um palco, desta feita nos Recreios da Amadora. Se a 23 de Fevereiro deste ano (no intimista Cefalópode) foi num ambiente familiar expectante que ela nos deslumbrou, desta vez foi num ambiente familiar seguro de si (dela) que ela nos encantou. Não restam mais dúvidas (se alguma vez as houve) de que a Deolinda sabe o que faz, que sabe ao que veio. O alinhamento foi-se aprimorando, novos elementos saltam constantemente ao ouvido, a encenação vai ganhando forma e eu continuo a morrer de inveja de quem a descobre... Não há como a primeira vez. Contado ninguém acredita. Há que experimentar.

Deixo-vos com os vídeos do "Contado Ninguém Acredita" e do "Ai Rapaz". E com o som do "Eu Tenho Um Melro", numa notável, notável, interpretação. O melhor tema da noite!












E agora? Agora, depois de quase um ano (e que ano glorioso tem sido), de concertos aqui e ali, a Deolinda está prestes a descalçar as suas brilhantes sabrinas. Vai regressar a casa, vai lavar o chão e as escadas, estender a saia e o xaile lavados com Clarin no varão e, enquanto fuma um cigarro, descalça e cansada, no sofá, vai fazer contas à vida e pensar no melhor modo de se lançar no seu próximo desafio. Nós, pela nossa parte, aguardamos com todo o fervor esse menino que aí vem.

Fátima, 90 anos + 1 dia

E oiço, logo pela fresquinha, as seguintes sábias palavras – «Eu só tenho pena é da menina, dos outros todos não tenho pena nenhuma»*. Mainada. Venham mais 90 anos!



* Esta frase pode ser perfeitamente traduzida por algo como «eu tenho pena é da miúda [a Maddie, claro] mas os outros [os pais, os ingleses de nariz arrebitado, os sérvios provocadores, os ricos, o Sócrates...], a esses, matava-os a todos no paredão, ai não».