Ontem, após um intervalo de mais de 4 meses (porra, tanto?!; parece que foi ontem...), voltei a ter o prazer de rever e reouvir a minha amiga Deolinda. Ontem a atitude foi mais encostar à parede e deixar voar a imaginação, cantarolar em surdina as letras da fadista suburbana e deixar o melro voltar ao lar. E prestar atenção aos detalhes, tentar perceber o que mudou, o que evoluiu, nestes últimos meses (sim, que eles não pararam, eu é que me pus ao largo...). E foi bom, foi muito bom. Ela cresceu, foi retocando aqui e ali e continua, acima de tudo, a ser uma tipa às direitas.
(Foi bom rever-vos. Óptimas as novidades. A gente vê-se na Amadora. Beijos.)
E ainda alguém tem a coragem de negar que este é um país estranho, esquizóide, bipolar, doido, insanamente inesperado, taralhoco, imbecilmente não confiável? Tudo neste país sai inesperadamente de onde não era suposto sair. É como se neste país andassem os papéis todos trocados. Ou como diz o outro, andamos todos aos papéis.
Só gostava era de saber qual terá sido o sacrifício pessoal mencionado por Santana Lopes...
Desta vez trata-se de um filme de Claude Chabrol, Juste Avant la Nuit. Notável filme que se integra perfeitamente no género que já nos deu filmes como Match Point (Woody Allen) ou L'Adversaire (Nicole Garcia), ou seja, filmes que lidam com a morte (geralmente na forma de assassínio) e a consequente manifestação da culpa. Sempre foram e serão filmes que me fascinam. Como se não bastasse tudo aquilo que leva um ser humano a tirar a vida a outro ser humano, filmes destes (como antes a literatura nos brindou com Crime e Castigo; a que o filme de Woody Allen notoriamente não escapa) proporcionam-nos posteriormente o espectáculo que sempre é a loucura infernal da culpa, trabalhando diariamente, nos mais pequenos recantos da alma (da consciência), levantando as dobras mais vincadas dos constragimentos sociais, envenenando, conspirando, destruindo fatalmente. A culpa, essa terrível companheira do ser humano. Os fantasmas e as alucinações (e aqui também lembro o genial L'Enfer, do mesmo Chabrol), as maquinações, o turbilhão em que a sanidade mental pode cair, sem poder escapar. A não-escapatória, o não-retorno. Existirá melhor tema, melhor guião, para um filme? Claude Chabrol fala-nos aqui de Charles Masson (notável Michel Bouquet) que, após ter assassinado a sua amante (mulher do seu melhor amigo), vive dias de angústia e desespero. O modo como a culpa se vai insinuando e o desenrolar de toda a trama são do melhor. As voltas que a vida dá após uma morte naquelas condições são de arrepiar; a culpa, e o perdão, e a conivência, e sobretudo a reviravolta final, deixam-nos estupefactos neste belo filme de Chabrol. Mais um terrível filme de 1971! [Hã?!]
Charles Masson jogando Scrabble com a sua mulher após ter assassinado a sua amante...
Em 1970 Nadine Trintignant (mulher do grande actor Jean-Louis Trintignant) perdeu a sua filha de 9 anos de idade, Pauline. Terrível fatalidade que, um ano depois, na companhia de Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve, viu a sua sublimação sob a forma de um estranho (um bom estranho) filme – Ça n'arrive qu'aux autres. Numa pequena produção, com uma muito pequena equipa (7 pessoas) em que todos faziam de tudo, Nadine conta-nos a história de um casal que perde a sua filha de 1 ano e meio e consequente espiral de loucura, mágoa e salvação. Catherine Deneuve (grande amiga de Nadine e, por isso, presumivelmente sensível à situação, logo excelente no seu desempenho) é Catherine, Marcello Mastroianni é Marcello e só Pauline não é Pauline, mas sim Camille. O choque da notícia, a recusa da aceitação, a reclusão de ambos num apartamento parisiense e toda a explosão de sentimentos e dores várias são filmados por Nadine de uma maneira inteligente, muito doida (um bom doido) e experimental. Uma nota particular para a banda sonora (dum tal Michel Polnareff; verdadeiro cromo!) e seus loucos loops sonoros. Definitivamente a ver! Mais um bom filme de 1971.
Em 2003, decerto se lembram da história, Nadine Trintignant encontrava-se a filmar na Lituânia o seu último filme. Nele participava a sua filha, a actriz Marie Trintignant, que, na maior das tragédias, acabou brutalmente morta pelo seu namorado de então, o músico francês Bertrand Cantat. Nadine perdeu mais uma filha, aquela a quem tinha dedicado o filme de 1971 (e onde Marie tinha tido mesmo um pequeno papel). Cena macaca!
Sábado que vem, dia 29 de Setembro, há Deolinda no Music Box. Eu vou lá estar. Celebrarei as minhas 36 primaveras com os sons malandros da Deolinda, entre melros e cubas-livres. Aos meus amigos e amigas que por aqui passarem entretanto, lanço o desafio: passem por lá e bebemos um copo ao som dessa fadista suburbana. O convite está feito, lá vos espero.
Music Box (no Cais do Sodré, antigo Texas), pelas 24:00, 10 euros (dá direito a 1 bebida).
Cada vez gosto mais da ARTV (para quem não sabe, trata-se do canal televisivo do Parlamento português). E quem me conhece sabe que não estou a brincar, gosto mesmo daquele canal. Sempre que lá caio (bem, aqui tenho de confessar que mesmo gostando do dito canal mantenho-o lá bem para a frente no meu alinhamento pessoal dos canais... gosto dele mas não sou doido...), mas sempre que por lá caio, por lá fico. Umas vezes mais tempo, outras vezes menos tempo, umas vezes bocejo, outras sorrio, mas na maior parte delas fascino-me. Aquilo é Portugal a trabalhar (e nem sempre temos essa chance, certo?). Ali temos a oportunidade de observar o verdadeiro tutano do português médio, o modo como se fazem as leis e discutem futuras leis, a encenação de uma contemporaneidade confrangedora mas, ainda assim, nacional e verdadeira. Quando assisto ao ARTV penso sempre o quão útil ao país seria trocar (obrigar mesmo!) os telejornais dos vários canais por uma horita de uma qualquer comissão parlamentar. Ali sim, ali poderiam os portugueses ficar a perceber um pouco mais (e melhor) de si mesmos. Mas atenção, estou a ser um pouco cínico (admito) mas não desonesto. Não. Embora na maior parte das vezes o que ali se assiste seja um triste espectáculo, uma coisa é certa – trata-se sempre de um espectáculo verdadeiro (logo, desejável e interessante). Ali Portugal (e os Portugueses com ele) fazem o melhor que podem (o que, na realidade, é o máximo que se pode exigir seja de quem for). Ali Portugal cumpre-se. Tenho dificuldade em lembrar-me de outros locais (ou circunstâncias) em que possamos assistir tão francamente e tão cruamente à realização, à laboração, deste nosso país. Ontem calhou-me em sorte (porque, à semelhança do país, também o visionamento da ARTV acontece geralmente ao calhas) a Reunião Extraordinária do Conselho Consultivo para os Assuntos da Imigração (COCAI), dedicada ao tema da participação política dos imigrantes na sociedade de acolhimento. Ontem pude ter uma ideia mais real do que anda a ser discutido, onde e por quem, em relação aos temas da imigração (sobretudo no que diz respeito aos direitos de voto e de eleição por parte das comunidades estrangeiras em Portugal). Ali vi fragilidades, ali vi receios e disparates, ali vi sobrancerias várias, ali vi desinteresse, ali vi um debate a ser travado, uma nação (ou uma noção?) a dar um passo (de muitos) num assunto tão interessante quanto este. Ontem não vi (como geralmente não vejo) os telejornais, mas aposto que nem um mencionou esta reunião e o tema ali abordado. É pena, pois esta reunião e o que por lá se disse dizem-nos muito mais àcerca deste país do que a última notícia (do momento) sobre o último pedófilo (do momento), do que o último programa da Fátima Campos Ferreira, ou mesmo do que o último jogo da selecção nacional de rugby (que, graças a Deus, se vai embora dos escaparates já hoje, e não se fala mais nisso... de amadores está este país cheio). Disso não tenho dúvidas. Sintonizem-se! A ARTV é do melhor que há. Não diz o povo que o que é nacional é bom?
Para todos aqueles que sabem a diferença entre comer uma cenoura de origem biológica e uma cenoura do Pingo Doce, para todos aqueles que conhecem o prazer de comer acelgas escaldadas, assim como elas são, sem temperos, umas atrás das outras, e sobretudo para todos aqueles que não sabem mas podem ficar a saber, aqui fica a indicação do novo espaço do Ângelo e da Manuela.
Miosótis Frutas e legumes, iogurtes, carnes, bebidas, arroz e massas, pao e bolachas... tudo proveniente de agricultura biológica. Av. Óscar Monteiro Torres, 15-B (junto ao Campo Pequeno) De 2.ª a 6.ª, das 10 às 20; Sábados, das 9 às 17 Tel.: 217 959 357; E-mail: biomiosotis@gmail.com
O Chelsea FC não era nada (ou muito pouco) antes de Mourinho lá chegar e, agora que Mourinho se foi, voltará a não sê-lo (de resto, à semelhança do FCP antes dele). Mourinho deixou uma equipa nos termos em que deixou, deixou atletas devastados (cheguei a ouvir nos media que alguns choraram...), deixou para trás uma massa associativa de rastos, não sem antes chupar o máximo de euros (ou serão dólares?) que pôde ao russo milionário. Isto é profissionalismo? Isto é ser-se o melhor treinador do momento? Não sei não. É óbvio que a queda vem sempre (é inevitável), mas um profissional deixa a casa arrumada, trata das suas coisas e das suas pessoas. Não sai como Mourinho saíu. Mourinho se é o melhor (como dizem) teria de ter deixado um Chelsea admirável e a rolar. A ver vamos.
Hoje, 23 de Setembro de 2007, quase 9 meses depois de ter iniciado a minha actividade hípica, tive o meu baptismo. A minha primeira queda. E em grande. Com direito a mortal encarpado para a frente e queda em pés juntos! Só não deu direito a aplauso geral porque o resto da malta tem de ter mão nas rédeas... Contudo, no hard feelings Nanjing!
«The Dutch seem to have an allergy to authority, leadership and collective discipline. Their teams behave like armies of generals. (...) Even Wim van Hanegem, who famously hated to lose, chuckles when I ask why the Dutc make life so difficult for themselves in major tournaments: "For Holland, problems are normal and healthy. If things around the national team are quiet, everyone thinks everyone is sick. If we don't have a problem, we have to create a problem. Personally, I think it's better when things are quiet, Bur for every World Cup or European Chamionship we have to hav problems. I don't know why".»
«"The Dutch take an almost nationalistic pride in denying tha we have a national identity. (...) The art of being Dutch is t transform our vulnerability into moral superiority. We are samll and we lack power, but we think the whole world will adopt us as a model of enlightenment. We have such a strong sense of moral superiority that it's not so important to us if we win or lose." (...) "We lack the ability to describe who we are. We know who we are, but we deny ourselves the idea of describing it because we seek our identity in the denial of that identity. We make it difficult to mobilise our own national energy or use nationa symbols for ourselves."» [political scientist Paul Scheffer]
«"There is some kind of death wish in it connected to our Dutch, Calvinist shame of being good. Our Calvinistic culture makes us deeply ashamed of being the best."» [psychoanalyst and novelist Anna Enquist]
«The Isreali-born paranormalist Uri Geller reckons there could be a curse on the Dutch football team because of "some devastating occurrence that happened may years ago". "It may sound very bizarre to you, but theses things happen. I don't know what it could be, but I will check the history." He senses a "very powerful wave of lack of confidence" among the Dutch players, wich is passed down from generation to generation. He also thinks there's a problem with the Dutch fans. "Orange is a very powerful, assertive colour and Dutch supporters make a lor of noise, but there is something dead in them. There's no life, no spirit. If they had the spirit, then they'd start winning. Maybe it's in the psyche of the Dutch people. Someone has to teach them the power of prayer, belief and faith. If you could teach the players also and combine that with the fans, then you would definitely star winning cups." Geller suggests a televised ritual involving chanting of 'key words' before a match might get the whole country behid his team. There are surely more rational explanations for this Dutch affliction – and less exotic cures.»
As citações são retiradas do livro Brilliant Orange. The Neurotic Genius of Dutch Football, de David Winner.
«Winning is not the most important thing. The most important thing is to play a good game.» Foppe de Haan
«Dutch crowds don't like it when southern European players come here and introduce diving. Machlas [a Greek striker] or Dani [who is Portuguese] say: "At home, we are heroes if we win a penalty". But in Holland the crowd doesn't like it at all. If an English defender kicks the ball into the stands, he gets a big cheer. Do that here and you get booed by your own fans. It's seen as destructive. In every Dutch team the defenders, even the goal keeper, must be able to play football.»
«The Dutch are devoted to their good football (a phrase with distinct Calvinistic moral overtones) and also have an equally Calvinistic urge to proselytise their beauty and goodness to the world. As Feyenoord boss Leo Beenhakker observes: "At a World Cup or a European Championship, ninety per cent of the teams are there to win. But there's always one country who only wants to show how good they are. And that's Holland. It's our drama. With all our talent, our technical and tactical skills, our offensive football, we have only once won a major tournament [in 1988], and that was by accident. We love the game, but we lack something.»
«"I don't go through life cursing the fact that I didn't win a World Cup. I played in a fantastic team that gave millions of people watching a great time. That's what football is all about. The Dutch team of the seventies was fantastic to watch. (...) That is the best reward I can have as an ex-player (...) There is no medal better than being acclaimed for your style. (...) Be happy, express yourself and play. Make it special for you and for everyone watching. That is the greatest reward.» Johan Cruyff
«Dennis Bergkamp, the coolest, most austere aesthete of current Dutch players, has said that "Behind every action must be a thought". As Johan Cruyff puts it: "(...) You have to be in the right place at the right moment, not too early, not too late.". Como se pode depreender das seguintes imagens.
Um dos melhores golos de sempre! Dennis Bergkamp no 2x1 face à Argentina no Mundial de 1998 (França). Frank de Boer lança a bola pelo ar (cerca de 60m!) e Bergkamp com apenas três toques (do seu pé direito) domina a bola, tira o defesa do caminho e mete a bola na baliza, colocando a Holanda nas meias-finais (face ao Brasil, com quem perderam nos penalties).
As citações são retiradas do livro Brilliant Orange. The Neurotic Genius of Dutch Football, de David Winner.
[Valdano a propósito do fantástico golo de Maradona face à Inglaterra em 1986; não o da mão de Deus, o outro] «On a visit to London in 1998, Valdano recalled: "He [Maradona] told me that at that moment, he remembered a game seven years earlier at Wembley when he'de been in a similar position and had played the ball to Shilton's [precisamente o mesmo guarda-redes do jogo de 1986] left and missed the goal. He assessed the current situation and decided that he didn't need me [a ideia original era furar a defesa e passar a bola a Valdano]; he could solve the problem of scoring himself. In a quarter-final of the World Cup, after a seventy-metre run, he was able to recall a situation from years earlier, analyse it, process the information and reach a new conclusion. And he did it in a fraction of a microsecond. That is genius."»
«Arnold Muhren was famed for both his technique and his singularly Dutch ability to approach the game as if it were a kind of physical chess. "It's a thinking game. It's not running around everywhere and just working hard, tough of course you have to work hard too. Every Dutch player wants to control the game. We play the ball from man to man; we wait for openings. That's how to play football: with your brains not with your feet. You don't have to be a chess player, but you must think ahead. Before I had the ball I knew exactly what I would do with it. I always knew two or three moves ahead. Before I get the ball I can already see someone moving in front of me, so when the ball arrives I don't have to think about it. And I don't have to watch the ball because I have the right technique." If ball control comes naturally to a player, he needs only one touch to get it where it needs to be. This is not the case if a player in possession has to stop to think. A pass which is a fraction of a second too late will have repercussions in the pass after that, and so on. "(...) In Holland we don't think about the first man. We think of the third man, the one who has to run. If I get the ball, the third man can run immediately because he knows that immediately I will pass to the second man, and he will give it to him. If I delay, the third man has to delay his run and the moment is over. It is that special moment, that special pass."»
«"We think football is a passing game", says Gerard Van der Lem, who is now in charge at AZ Alkmaar. Van der Lem's team, like those of his friend and mentor Louis van Gaal, are based to an extreme degree of possession of the ball and switching it around the field at extraordinary high speed, probing for weakness and space in the opponents' defence. Creating fast, compact passing-triangles has become one of the central dogmas of Dutch coaching in the last decade. This requires intelligent, quick-thinking players who, when faced with several options (run with the ball? or pass? if passing, who to?), are able to choose immediately and correctly the right option for the team and the system. "The most difficult thing in life is choices", says Vand der Lem. (...) Van Gaal is the most extreme version yet of a Dutch coach who sees football almost entirely as a highly ordered collective endeavour: "Football is a team sport, and members of the team are therefore dependent on each other", he says. "If certain players do not cary out their tasks properly on the pitch, then their colleagues will suffer. This means that each player has to carry out his basic tasks to the best of his ability, and this requires a disciplined approach on the pitch."»
Golo de Van Basten no jogo Holanda-Inglaterra no Europeu de 1988 (que a Holanda acabou por vencer).
As citações são retiradas do livro Brilliant Orange. The Neurotic Genius of Dutch Football, de David Winner.
Trinta e três anos volvidos sobre o acontecimento do post anterior, eis que Rui Costa delicia o mundo com mais uma enésima versão/upgrade da "Cruyff's turn"...