sexta-feira, agosto 31, 2007

Cenas da vida quotidiana OU Quando falamos e não ouvimos o que dizemos

Uma menina brinca na areia junto à esplanada do café da praia. A mãe, visivelmente impaciente, pretende ir embora para casa e não consegue arrancar a menina das suas brincadeiras na areia. Vergada perante a falta de autoridade, a mãe dispara os seguintes argumentos.
Argumento 1: «Filha, anda. Senão, ainda aparecem por aí aqueles homens que tu sabes.»
Argumento 2: «Anda. Olha que ainda és a próxima Maddie.»
Argumento 3: «Bem, se calhar, mais vale chamar já a polícia.»

Isto tudo de rajada, isto tudo assim, a seco. Mas a menina levantou-se e, ordeiramente, foi com a mãe. Dei comigo a pensar nas centenas de meninas (e meninos) por essas praias fora, por essa imensa costa lusitana, que estão nestes tempos insanos a ouvir semelhantes argumentos. Que geração será esta daqui a 20 anos? Que gente, que ouviu semelhantes atoardas, virá a crescer daqui? Eu pretendo estar por aqui, ainda, para ver se percebo. Mas não sei não...

sexta-feira, agosto 24, 2007

Maduros a Preço Verde...

À conversa com o amigo Silva, e na sequência deste regresso ao passado originado pela lembrança do concerto dos Motörhead em Cascais, ou dos Echo and the Bunnymen no Restelo, ou do Rock Rendez Vous em geral, chegamos à conclusão de que um tipo está velho quando as bandas com quem cresceu estão todas na FNAC com o Preço Verde!

Cameraman Metálico

Será que alguém pode ajudar este homem, nesta fase difícil da vida?
Como diria o Sérgio Godinho, «Arranja-me um emprego...». A cena é caricata, mas não faço gozo. Eu cresci com este homem. Desde os meus primeiros concertos no Rock Rendez Vouz (bem, o primeiro mesmo foi Echo and the Bunnymen no Restelo...), e até aos dias de hoje, que este tipo é figura habitual nas salas de concertos por onde vou passando. Eu juraria que o vi nos Cult of Luna, este ano em Corroios. Ou deliro? Será que já o vejo mesmo quando ele não está lá...? O tipo tem um blog (um não, um porradão deles) e, lá, ficamos a saber que para além de ter dedicado uma vida inteira à fotografia da cena musical deste país, também é benfiquista (!), é da margem sul(!!) e gosta do Allende (!!!). E que é MOTÖRHEADBANGER FOR LIFE... fan since 1988 (pois é, também lá estive, no Dramático de Cascais...). Boa sorte no resto da tua vida é o que te desejo António Melão!

Out of the Blue

Finalmente consegui ver o Out of the Blue do Dennis Hopper. Wow! Imaginem que a pequena Addie Pray (Tatum O'Neill) do delicioso Paper Moon (de Bogdanovich) era adolescente em 1980 e não uma criancinha nos anos 30. E que tinha como ídolos Elvis, Johnny Rotten e Sid Vicious (todos acabadinhos de morrer, de lhe falhar). E que o pai em vez de ser um charmoso aldrabão era antes um charmoso filho da puta. E que a mãe (sim, neste caso ela tem mãe) era agarradinha às drogas. Bom, não temos Addie temos CeBe (mas os olhos são os mesmos). Não temos um filme delicioso, temos antes um filme diabólico. Dos bons.
Uma entrada em grande, mesmo antes do genérico (onde a música de Neil Young faz antever o melhor, grande tema), bons diálogos, grandes deixas (Disco sucks!; Subvert normality!; Kill All Hippies!, esta vim depois a descobrir deu um tema dos Primal Scream...), cenas intensas, do melhor. Lindo mesmo, foi descobrir onde se inspirou David Lynch para a cena, já antológica, de Dennis Hopper e Isabella Rossellini em Blue Velvet (1986). Ah, pois... E a Linda Manz? Outro wow. Amanhã tenho de rever o Days of Heaven, primeiro filme dela (e se o grande Terrence Malick a descobriu...), e depois de amanhã tenho de ir ao vídeoclube buscar o Gummo (filme de culto, superbadalado, que acabou por me passar ao lado).
E acabo a prosa com duas máximas da CeBe: «I'm not talking at you, I'm talking to you» ou «I don't want to hear about you, I want to hear from you».



Aqui fica o tema de Neil Young. Nunca um tema se imiscuiu, tanto e tão bem, no espírito de um filme...









My my, hey hey
Rock and roll is here to stay
It's better to burn out
Than to fade away
My my, hey hey.

Out of the blue
and into the black
They give you this,
but you pay for that
And once you're gone,
you can never come back
When you're out of the blue
and into the black.

The king is gone
but he's not forgotten
This is the story
of a Johnny Rotten
It's better to burn out
than it is to rust
The king is gone
but he's not forgotten.

Hey hey, my my
Rock and roll can never die
There's more to the picture
Than meets the eye.
Hey hey, my my.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Vamos fazer um pecado, suado, safado, do lado debaixo do equador...

O Strange Maps é, desde que o descobri, um blog de visita obrigatória. Daqueles que passo a vida a visitar, a ver se surgiu no entretanto alguma cartografia singular.
E hoje, brindou-me com este belíssimo mapa...


















© Corriette Schoenaerts


Daí dou um salto para o trabalho da artista/criadora/fotógrafa/performer Corriette Schoenaerts e, digo-vos, a senhora é muito, muito boa. O trabalho criativo da tipa é formidável e o website igualmente, daqueles websites em que se fica a clicar até ao último link possível. Façam-no, não se vão arrepender.

[Claro que a senhora tinha de ser... holandesa.]

Novela

E para os meus amigos brasileiros que por aqui tenham passado ultimamente e se tenham perguntado se eu já terei ultrapassado as saudades dessa cidade maravilhosa, a resposta é de tal maneira negativa que devo confessar o inconfessável. Já dei por mim a parar na novela das 9 só para poder ouvir a doce toada do português tropical e vislumbrar recantos, ruas, praças e o azul do mar no background das cenas. Triste cena. Mas compensa.

Aqui e ali, a vida desenrola-se...

Entre filmes e mais filmes e mais filmes, um jogo do Glorioso aqui e ali, cavalgadas extenuantes sempre que o corpo permite, refeições fora quando dentro não há coragem, tudo sob um calor quase intenso numa cidade quase deserta, aqui vou andando com a cabeça entre as orelhas (como diz o outro). Não me queixo, atenção, não. Eu gosto da minha companhia (como dizia um outro). Tenho é saudades da vida em família! Tenho a mulher no Rio de Janeiro, a filha no Alentejo e eu ando por aqui, entre contas erradas da Netcabo, a insuportável TSF e o coração tripartido. Vidas... Não me queixo, atenção. Não. Cresço. Obrigado.

O Bom Impostor

Ontem à noite vi o The Good Sheperd, segundo filme de Robert De Niro (treze anos após o A Bronx Tale). Não me divertia (e este divertia significa ficar siderado, colado ao sofá, with the jitters, respirar ao ritmo da trama, you know what I mean) assim tanto com a CIA e os seus meandros desde O Fantasma de Harlot do Norman Mailer. Valeu bem a espera. É sempre bom ver um filme como quem lê um romance. Até a Angelina Jolie passa com distinção... nada como uma boa direcção de actores e a companhia de uma cafraria dos melhores (quem não se lembra de Stallone em Copland?). A ver!

sexta-feira, agosto 17, 2007

Architectures of Control

Acabo de descobrir o Architectures of Control (obrigado amigo Alvim). Assustador yet fascinante. Recomenda-se vivamente. O texto sobre os motivos das carpetes dos casinos é notável!

Skypar ou não Skypar, eis a questão...

Há dois dias que ando a martelar a cabeça nas paredes devido a problemas de ligação ao Skype. Serão problemas com as portas, com o novo Norton, comigo? Não havia resposta. Até que hoje visitei (para matar saudades) a página de internet do jornal O Globo. E, catrapáz, lá estava a explicação. De seguida visitei o Público, o DN, o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias. Vi notícias sobre jogadores estrangeiros a jogar em Portugal (sempre me perguntei qual será o verdadeiro interesse destas notícias), vi que o Moita Flores é o novo reforço da SIC (????), vi que as taxas de juro vão subir (bem, esta é importante...), entre outras. Do Skype nada. No Brasil, é notícia com destaque no principal jornal do Rio de Janeiro. Por aqui se vê a grandeza de um país. Fui.

Não consegui voltar ao esquema de cores de tempos passados...

O verde, o azul e o amarelo recentes deixaram marcas profundas. Mudo-me para os azuis profundos e entreolho o Oceano Atlântico, esse imenso mar de emoções que permeia dois mundos tão distantes e tão próximos.

quinta-feira, agosto 16, 2007

O meu enorme agradecimento!

Um mês e meio depois, cento e poucos posts depois, não interessa quantas caipirinhas e saladas de batata depois, aqui fica o meu enorme agradecimento a todos aqueles e aquelas com quem tive o prazer de contactar nos últimos tempos.

Um caloroso e especial agradecimento deve-se ao Zé, à Anita, à Paula, ao Francisco e à Mila por terem dado guarida a semelhantes espécimes europeus. Só mesmo o vosso enorme coração permitiu tal cohabitação. Obrigado.

Maria Paula, Pedro, Hermínia, Vera, Léo, Luíza, a turma da Paulinha, Serrano, Júlio (Cosmopolita), a prof. da patinação, Telma, Núbia, Santuza, Paulo, Júlio, Filipe, Octávio, Tatiana, Juliana, Gilberto Velho, Marcelo e os miúdos, Dr. Jorge e Dona Ruth, Larissa, Zakya, Leo e Gigi, Ana, Getúlio, os motorneiros do bondinho, o Bar Luiz (um abraço especial ao garçom do costume), a Casa Paladino, a Modern Sound, os pais da Anita, Jasmim e Manga (mesmo as donas marrentas...), Marcô, Espírito de Santa, Esquina de Santa, o Gomez, o Café Lamas, os vários Belmonte e Informal, a Mil Frutas, o Túnel Rebouças, Arnaldo "Tudo bem" Jabor, todos os músicos, micos e aves com que me cruzei, Trindade, as múltiplas livrarias, Copacabana, Ipanema, Santa Teresa, Lapa, Lagoa, Centro, Bar Serafim, Rua das Laranjeiras, Rua Marquês de Pinedo, MAM, Maracanã, Parque Lage, Jardim Botânico, a cachaça, os sucos (abacaxi à cabeça), a Antartica Original, a Piauí, os taxistas aqui e ali, Antonádia e Marcelo, o zelador da Cândido Mendes, o Globo durante o café da manhã, Petrópolis, Paraty, Grumari, o Pacheco (e porque não?), os jogos Pan-Americanos, o Presidente Lula (aguenta camarada!), a BR 101, Stefan Zweig (mesmo que lírico...), as cocadas, os pastéis, as tartes, os filés, a areia de Copacabana (açúcar puro), o Guimas, o Atlântico, o Vascão, a galera da TJJ, e todos aqueles que esqueço neste momento... para vós o meu enorme agradecimento!

quarta-feira, agosto 15, 2007

Drafts

Dou-me conta que tinha 2 posts em modo draft, que nunca chegaram a ver a luz do dia enquanto estive no Brasil. Para não haver posts descontentes no meu dashboard nem queixas de discriminação, aqui ficam eles.

1.
Correndo o risco, o enorme risco, de chocar, irritar, surpreender, escandalizar e/ou irar alguns dos poucos (mas bons) leitores deste blog, atrevo-me ainda a apontar mais uma diferença entre nós (tugas) e eles (cariocas). [rufar de tambores] Estes tipos não levam o futebol a sério! Ui, disse-o. Permitam-me ainda (antes de começarem a atirar pedras) uma emenda: falo do futebol ao nível dos times (os clubes). Pois ao nível da selecção nacional, aí, penso que sim, eles levam isto muito a sério. Quem sabe, a sério demais. A imagem mundialmente traçada (e conquistada, diga-se) do Brasil como potência e país amante do futebol é digna de registo e louvor. Mas ouvir um vascaíno afirmar que, perante a escolha entre ver o seu Vasco campeão ou a descida de divisão do Flamengo, escolheria a última dá arrepios. E o que dizer dos cânticos das torcidas? Pura diversão, futebol disfarçado de rei momo, esculhambação pela certa, nada sofrido. E ver tipos abraçados com camisas de times rivais? Vasco, Flamengo, Botafogo e Fluminense tocando-se, bebendo em conjunto, fundindo-se, sim, fundindo-se numa só cor, numa só bandeira. Tudo isto me leva a reafirmar que estes tipos não levam o futebol a sério. Por fim, deixem-me confessar (se é que ainda está aí alguém a ler estas palavras...). Ainda bem que assim é. No fundo, no fundo, eles é que estão certos!

2.
Após uma noite de chorinho e petiscos num restaurante suspenso sobre a cidade, contacto com a polícia carioca. Cerca da meia-noite, paramos o carro à porta da irmã da Anita. O Francisco tinha ficado lá enquanto jantávamos e o Zé subiu para o ir buscar. No carro, a Anita ao volante, eu e a Susana no banco de trás. Surge, devagarinho, a nosso lado, um carro de polícia com dois policiais. Pára. Só a visão dos caras (acompanhada por todos o tipo de histórias e estereótipos já usuais) nos gelou. Um deles remata, áspero: «Tudo bem aí?». «Sim, tudo bem», responde a Anita. Repete a pergunta, não acreditando. Resposta afirmativa novamente. O carro avança. Pára. Recua. De novo, de rajada: «E esse cara aí?...». Aí, confesso meus amigos, tive medo, o meu peito doía. «É meu amigo, está comigo. Só estamos esperando a minha irmã descer», responde a Anita desconfortável (e cometendo um deslize que podia ter saído caro). Arrancam de novo. No fundo da rua, uns vinte metros à frente, param e permanecem. Não acreditaram. Estão ali parados. Surge então uma amiga da Anita e inicia conversa connosco. O carro arranca. Não os vimos mais. Chega o Zé com o Francisco e partimos.
Mais tarde, revejo os factos e chego a esta conclusão. Os caras são brutos? São. A visão do cano do fuzil espetado pela janela do carro fora é assustadora? É. Não foram simpáticos? Não. Mas fizeram o trabalho deles, aquilo que esperamos deles. Eles zelaram ali, naquele momento, pela nossa integridade. Ou melhor, pela delas. Pois, visto à distância, apercebo-me de que, vejam bem, eu estava no banco detrás do carro abraçando a Susana pelo pescoço. A Anita estava à frente, à minha frente, sozinha. Suspeito, não diriam? Não tenho dúvidas que eles acharam que eu estava a tramar algo. Aliás, aquela mesma rua tinha tido 3 assaltos a carros na semana anterior, daí eles estarem por ali (casa roubada, trancas na porta). Avançaram e ficaram à espera da confirmação da história da Anita. Que a irmã descesse. Quando quem era suposto descer era o Zé... Mas aí apareceu a amiga dela, eles avançaram e tudo acabou em bem.
Já pensaram se eu fosse mesmo um bandido? Não acham que se justifica o fuzil espetado, o ar intimidatório? Eu acho que sim. Até porque não tenho dúvidas que eles também têm medo, muito medo. O peito dorido que senti eles devem senti-lo quotidianamente. Barra pesada, não acham?

No céu azul traçam-se caminhos de ida e volta...

Vou na rua, ou estou sentado no sofá, e vejo (oiço) passar um avião no céu azul. Assalta-me a sensação de que perdi algo, de que me esqueci de algo importante, de que parte de mim ficou para trás. A isto se chama ter saudades.

Tangências

A minha amiga Ju tem um blog.
Deu o passo. Atirou-se.
Que lhe saiba bem o mergulho, é o meu desejo.

Tangências
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