O Futebol morreu. OK, enterre-se. O Cinema parece ir pelo mesmo caminho... {suspiro} Restam-nos a HBO e os milhentos documentaristas que por aí andam, por esse mundo fora. KUDOS. Ontem descobri esta pérola. Vejam-na. A sério. É tão "interessante" chegar à conclusão de que Chicago não está assim tão longe do Rio de Janeiro... :( Bem nos tentam "vender" o contrário, you know, land of oportunity and all that jazz, mas é todo um mundo {novo?} que se abre perante nós... Mas, no fundo, graças a Deus {ou whatever} existem os seres humanos!
Assistir à perda da inocência por parte de alguns jovens holandeses é de uma ternura extrema. Mesmo quando tal momento crítico tem desfecho triste e deprimente na vida de uns e de outros, não deixa de ser uma experiência interessante. Na realidade, acredito que um tipo até podia passar-se da cabeça e achar que eles são é umas bestas de uns idiotas, sempre metidos na vida deles, e que se não percebem como as coisas são, então, é porque são mesmo burros. Mas, por outro lado, não é bem assim. Eles são inocentinhos, acreditam no serviço, nas boas intenções e na vida certa. Mas uma coisa é saber disso, ler acerca, ser ensinado para... outra coisa é sentir, passar por elas. Eles estão tão habituados ao conforto – sensorial, material, visual, cultural – que ao mínimo movimento disruptivo, kaboom, lá se vai a lição.
Esta delírante introdução a propos de mais um documentário da grande Heddy Honigmann. Já de 1999, Crazy fala-nos das experiências traumáticas, em cenários de guerra e desolação, de alguns soldados {capacetes azuis, não soldados regulares} holandeses ao longo dos tempos, ao longo do globo. De como o enfrentar a dura realidade da miséria humana alheia os fez mudar. De crenças, de vida, de hábitos. De como tudo isto é {pode ser} triste. Um enorme ponto de interrogação paira por cima daquelas cabecinhas. E ninguém como Heddy para filmar essa gigante marca de vida. De dúvida. De remorso. De culpa. Mas também de saudade {e que ninguém acredite que a saudade é algo exclusivamente português, que mais ninguém tem, que é intraduzível... balelas}. De bons velhos tempos. Aqueles rapazes e raparigas fazem lembrar personagens de romances. Por vezes, aquilo é tudo tão irreal, tão ilusório, tão vago, tão enervante. Mas depois vem o momento em que percebemos que não, que aquilo é humano, é sensível, é palpável. E que deve ser extremamente difícil ouvir o respirar das emoções quando nos encontramos rodeados de tamanho conforto, de tantas certezas. E voltam as interrogações.
Ponto alto do documentário é sem dúvida a música. O papel vital que determinada música tem na vida daquelas pessoas, quando em relação com a experiência traumática. Heddy conseguiu descobrir que todos aqueles soldados tinham uma música de eleição, uma música que os levava de volta ao teatro de operações. E decidiu ouvi-la com eles, em silêncio, filmando-os. Pergolesi, Seal, U2, pimba sérvio-croata, folk cambodjano, uma balada de intervenção holandesa... Esses grandes planos são magistrais, intensos. Pouca gente faz isto tão bem. Gefeliciteerd!
PS — E como hoje é koninginnedag, Lang leve the koningin!
Quem me conhece sabe que eu sou muito crítico, bastante, demais, em relação a Portugal. E que não perco uma oportunidade para malhar, diminuir e arruinar este país, os portugueses, a loserfonia, a mediocridade nacional. Sempre que posso. Isto não vale grande coisa, e não vale a pena escondê-lo. É {muito provavelmente} verdade que se é mais feliz não acreditando nisso, encolhendo os ombros e vivendo de acordo com os hábitos do resto da maralha. Mas... nem sempre é fácil, ou possível, ou exequível. Mas quem me conhece também sabe que quando há que reconhecer valor também o faço, e com prazer, e com vigor, e muito exagero, God knows how I love superlatives! E ontem, uma vez mais, me apercebi que há coisas que este país faz, produz, cria e alimenta como nenhum outro. O mitra, o mangas, o burlão, o city dweller, o cromo, o agarrado, o bêbado. E o que dizer desta capacidade lusitana de mesclar humor com sordidez? Poucos países constroem estes personagens como Portugal. Atenção que não estou a ser cínico. Não estou. Isto é, de facto, um elogio. Reconheçamos, pois, o que de bom fazemos. Gratidão.
Isto a propósito do excelente documentário que apanhei ontem à noite na RTP2, de seu nome Esta Rua É Minha, de Gonçalo Mégre. Muito agradável surpresa.
Fartei-me de esperar por alguém que me ouvisse. Já papei a first season, estou na second season e a third season espera por mim, ali em cima da mesa. As duas primeiras vieram via Pirate Bay {you're the man, ingekul!} enquanto a terceira veio via Amazon. Ainda não pensei o que fazer em relação às fourth e fifth seasons, mas não perdem pela demora.
Mas uma coisa é certa, caros amigos. Todas as expectativas foram não só comprovadas como amplamente superadas. The Wire é, pura e simplesmente, do melhor que tenho visto em televisão; e olhem que já muita televisão passou por estes olhinhos. Dos vários textos, aqui e ali, que já tinha lido sobre a série, a conclusão mais comum, para além dos contínuos elogios, era a de que a série estava decalcada da realidade com uma eficiência considerável. O trabalho de campo, a investigação e a entrega aos assuntos abordados tinham sido levados muito a sério, quase parecendo, em certos momentos, mais um documentário do que uma série televisiva. A malta da rua, os agentes dos narcóticos e os dos homicídios, os estivadores, a Lei, todos eles representavam crivelmente a realidade. A ideia, diz Simon David algures, era que um qualquer estivador de um qualquer porto norte-americano que visse a série se identificasse automaticamente com Sobotka. O mesmo aconteceria com um qualquer McNulty que, do balcão de um bar qualquer, desse uma espreitadela para a televisão em mute, lá no canto. O mesmo já não diria de qualquer dealer afro-americano de uma qualquer esquina, pois essas tribos fazem ponto de honra em se diferenciar umas das outras. Mas os afro-americanos de Baltimore revêm-se certamente; um Omar ou um Wee-Bey não serão difíceis de encontrar.
A série é, por vezes, muito pouco série, pois tem uma dimensão muito própria, uma noção de ritmo pouco usual, onde a acção por vezes se arrasta ou se demora em pormenores ou diálogos que noutros formatos, e para outros públicos, não se aguentaria. A cidade, a rua, os vários segmentos da sociedade, estão definidos e presentes em The Wire de uma forma muito interessante; a própria forma como no site da HBO o elenco da série é apresentado é testemunha disso. Tal como o é a própria forma como a série foi pegando nestes segmentos, nestas instituições da city life {e lembro-me do sticker de Bunk que diz "I love city life"...}, a Rua, a Polícia, a Lei, a Escola, os Media, e as foi distribuíndo pelas várias, cinco {acabou este ano nos EUA}, épocas em que a série se desenrolou. Esta noção de proximidade com a realidade, esta veia documental, parece que deve muito à mini-série que a precedeu, The Corner — que acabei agora mesmo de ripar para um DVD, que segue por sua vez para fila de espera... —, trabalho que abordava apenas a rua, a esquina, e os "mitras" que a habitam. The Wire e, presumo, The Corner, em suma, o trabalho de David Simon e da sua equipa fazem-me lembrar, em certos momentos, o trabalho de Studs Terkel, esse incontornável e incansável divulgador do average american e das suas histórias e hábitos, o que é sempre bom.
E já referi que o cenário onde a acção se desenrola é a cidade de Baltimore? Eis outra das boas marcas de qualidade da coisa, Baltimore. Quem se lembraria de Baltimore? Bom, os carolas por detrás da escrita da série, que são de lá. O que torna a coisa ainda mais perfeitinha, convenhamos. Não há cá New York, nem Chicago, nem San Francisco, nem Las Vegas, nem Miami, nem LA. Não, os locais são mesmo estes aqui.
E quem quiser ler um pouco mais, pode fazê-lo aqui {só para assinantes...}, aqui, aqui e aqui. E volto a divulgar essa bela conversa entre David Simon e Nick Hornby.
Há uns dias vi esse documentário brasileiro que dá pelo nome de Morro da Conceição {2005} de Cristiana Grumbach. Assistente e discípula e amiga de Eduardo Coutinho, Cristiana tem já todos os seus defeitos nomeadamente o dos planos longos e disparatados, aquele lirismo deslocado, mas não vou dizer muito mal pois se não for Coutinho e os seus a fazerem disto ninguém o fará... Mas o que é isto? Isto é ir aos sítios mais esquecidos, marginais, em vias de, e filmar o que lá se passa. Sentar na frente de pessoas que ninguém se dá ao trabalho de conhecer e deixá-las falar por uns momentos. Pode nem ser grande coisa. Mas é sempre saboroso. Coutinho fê-lo uma vez com Edifício Master {2002} e Cristiana fá-lo agora com Morro da Conceição, esse belo e raro bairro carioca {que não posso deixar de visitar da próxima vez...}, ali entre a Candelária e o porto, esquecido, onde o tempo parece parado, tal como os portugueses que por lá restam...
Estamira {2004} é um documentário do brasileiro Marcos Prado, o produtor de toda a obra de José Padilha, uma espécie de braço direito de Padilha, irmão de armas, duas faces da mesma moeda, whatever. Começou por ser um projecto fotográfico, a um nível mais pessoal, sobre a megalixeira Jardim do Gramacho {só mesmo os cariocas para chamarem de Jardim à sua maior lixeira a céu aberto...} e seus múltiplos personagens recolectores. Mas Marcos Prado deparou-se com uma senhora, "louca", 63 anos, Estamira de seu nome, e não resistiu a filmá-la e traçar-lhe uma espécie de história pessoal, não lhe tivesse ela dito «que tinha uma missão na vida: revelar e cobrar a verdade». Tornaram-se amigos e um dia Estamira perguntou a Marcos se sabia qual era a sua missão na vida. Antes que Marcos respondesse ela foi avisando «a sua missão é revelar a minha missão».
Não há na Fnac, não há no eBay, não há na Amazon, não há na Alibris, mas há na Esquina de Santa... se houver algum amigo por lá, peçam-lhe uma cópia. Aqui só mesmo o trailer.
Mas a Estamira continua a "perturbar-me"... Quem não viu que veja, quem já viu que reveja, quem já reviu que partilhe. O filme, os sentidos, as ideias. A miséria humana que não é assim tão miserável? Ou a Humanidade miserável que não é assim tão humana? Pois. Estão a ver a coisa, não é? A Estamira troca-nos as voltas, não fosse o desmascarar dos espertos ao contrário a sua luta, agora que não tem mais inocentes neste mundo. E como ser-se mau sem se ser perverso? Ah, boa. Isto, eu até que entendo...
E a Estamira?!? O que dizer, fazer, escrever, pensar, após ver-se Estamira?!? Oh, raios, estou seco... preso, baralhado... sei que quero falar algo, não sei bem o quê, nem como...
E por falar em Kapow!, mais Kapow! e algum Feuer!, o que dizer do magnífico Kaboom!, mais Kaboom! e algum Mai Lai! que vi há uns dias atrás? Falo dessa belíssima peça documental – há quem a considere A peça documental –, sobre essa enorme chacina, esse monstruoso charco de merda, que foi a Guerra do Vietname, e que dá pelo nome de Hearts and Minds {1974}, de Peter Davis. Muito bom mesmo, recomendo vivamente. Daqueles que nos fazem engolir em seco. Daqueles que nos deixam sem saber o que fazer com os malditos dos norte-americanos. Daqueles que nos amargam a boca perante o miserável estado das coisas. Daqueles que não nos deixam em paz. Grrrr... Damn good documentary!
Ora bem, inexplicavelmente a tentar fugir (e logo eu...) a listas de fim de ano, e por conseguinte já com alguns dias de atraso, e partindo ainda do princípio que os filmes do ano são sempre os filmes vistos/descobertos (e não os estreados) nesse ano, aqui ficam as minhas escolhas de filmes e documentários, sem ordem particular para além da cronológica.
Uma coisa é certa, tanto os Joy Division como Ian Curtis (e dará para separá-los?) sempre se prestaram às mais variadas versões sobre factos, acontecimentos e humores. Aí reside, diria, um forte factor do seu sucesso, do seu encanto. Era epilepsia ou era esquizofrenia? Gostavam ou não dos Buzzcocks? E dos The Fall? A Divisão do Prazer era uma divisão feminina SS destinada a assegurar a espécie ou tratava-se da selecção das mais belas presas dos campos de concentração destinadas a assegurar prazer? E Ian Curtis viu, na noite da sua morte, Stroszek (Herzog) ou In A Lonely Place (Ray)? Versões. Control é uma versão. Aquela que vi ontem, à noite, com o meu amigo Alvim (numa sessão a lembrar tantas outras...) é boa, é óptima, é reconfortante. Control trata o assunto com uma delicadeza e uma humanidade de que não estava à espera. E se estava à espera de depressão (e motivos não faltam), ela fez-se rogada. Mais, e se estava à espera de passar por reminiscências (fazer o quê?, Joy Division faz parte da minha educação musical...) não estava à espera da sensação que foi a de estar a ver um filme sobre um antigo amigo meu. É o que dá ir ver filmes sobre bandas/músicos que nos formaram naqueles cruciais anos da adolescência. Foi bom voltar atrás. Foi bom rever Ian Curtis. Foram boas as histórias que ele me contou depois do filme, no Galeto, bebericando um Gin tónico...
Querem ficar deprimidos? Bem deprimidos? Deprimidos com qualidade? Então, vejam o documentário The Corporation (2003). Se calhar já o viram, mas eu, com um atraso de 4 anos (em matéria de filmes os atrasos são inevitáveis...), vi-o a semana passada. Ainda hoje estou em estado catatónico. Não porque não soubesse ou imaginasse metade do que ali vi, não, mas apenas porque constatar certas coisas deprime. Ponto final. E acabar por concluir (que, acho, foi o que concluí) que já não há fuga possível, apenas o recurso à vida underground (ou será sideground?) é foda. À margem. A única saída. Mudar a corporation? Tá bem, tá. Ir para as ruas? Pois. É verdade que os tipos que lutaram contra a privatização da água da chuva (!!!) na Bolívia conseguiram, mas... Estou deprimido. Aliás, não por acaso, leio hoje este sensato e perspicaz post do Reactor. Leiam-no e vejam o filme. E digam lá se não ficam bem deprimidinhos...
Trailer
Amanhã acordarei melhor. E vou para a rua. Apanhar chuva!
Há já uns meses que tento comprar este documentário mas não anda fácil. Nem no eBay (em bootleg version) se encontra actualmente. No Youtube, pelo contrário, embora difícil, encontra-se disponível em várias partes. Aqui ficam as possíveis (faltam 2 partes; prometo completar se possível). Aconselho vivamente, pois, que visionem os vídeos abaixo.
parte 1
parte 2
parte 3
parte 4
parte 5 (em falta; é pena, pois nesta, pelo que me contaram, assiste-se a uma interessante reunião do Governo golpista na qual fica escancarada a falta de legitimidade e responsabilidade democrática por parte do mesmo)
parte 6
parte 7 (em falta; o final do documentário)
Posto isto, só apetece dizer que só não vê quem não quer ver. Todas as recentes reacções e discussões acerca de Chávez e da Venezuela são reféns da falta de uma visão ampla e aberta à diferença, talvez da falta de um pensamento mestiço (aqui). Sim, estamos reféns das nossas ideias e ideais de Democracia. Como criadores da mesma (achamos nós) saímos em sua defesa à semelhança das bandas que saiem em defesa da sua música querendo com isso, e por isso, cercear a partilha de mp3 e afins. Democracia com royalties? Isso é um absurdo! Que olhemos para a Venezuela, ou outros locais por aí fora, e não nos revejamos, não nos identifiquemos, isso não deve ser um problema. Se o é, talvez esteja na altura de olharmos para nós próprios e identificarmos a razão pela qual não conseguimos deixar parte considerável do planeta viver em paz, ou em guerra se tal for a vontade. Nós (e está na altura de dizer, para os mais distraídos, que nós é o chamado Ocidente) aceitamos com muita dificuldade outros modelos de governação, outras dinâmicas de viver a vida, e isso é triste e redutor. Para nós mesmos. Olhando o documentário irlandês facilmente dá para ver que não sabemos (não queremos saber) da missa a metade. Mas a metade que nos servem basta?
[O meu agradecimento a kbcmighty pelos vídeos / Thanks to kbcmighty for the videos]
Ontem à noite, sessão dupla com José Padilha. Primeiro o Ônibus 174 (2002), seguido do recente Tropa de Elite (2007).
No Ônibus 174 (de que gostei muito) vi novamente a Humanidade. Há uns tempos atrás tinha aqui falado da Humanidade e de como ela me parecia estar tão presente nas ruas e nas mentes do Rio de Janeiro. [curioso como também foi essa a primeira palavra/noção que expressei aqui em 2007...] Pois ontem ao ver o documentário de Padilha sobre o famoso sequestro do ônibus 174, sobre Sandro Barbosa do Nascimento e as suas reféns, eu vi novamente essa Humanidade de que tenho vindo a falar. A Humanidade que permite que Sandro chegue a ser abraçado, quase confortado, por algumas das reféns, que lhe chegam mesmo a dar uma medalha protectora; que faz com que elas joguem o jogo por ele proposto (um jogo, de tal ordem bizarro, em que até uma delas tem de fingir morta...); em que uma delas (pelo menos uma delas) sabe que hoje, passada a tormenta, até lhe perdoa o feito. Mas também a Humanidade que, ansiosa, esperou o momento do desfecho para poder linchar o Sandro mal houvesse oportunidade e, na falta dela, e como a Humanidade também está nos policiais, se mostrou em pleno no asfixiamento brutal (mortal) a que Sandro foi sujeito dentro do carro da polícia por agentes totalmente embrutecidos. É um documentário de imagens fortes mas sobretudo de ideias fortes. Padilha não se limitou a explorar as emoções mais básicas de uma história de terror urbano, indo, pelo contrário, e na melhor tradição do documentário, procurar as histórias por detrás da história. E deste modo temos acesso a fragmentos da vida passada e desconhecida de Sandro, desde os traumas de infância (e, sim, ver a mãe a ser esfaqueada por três tipos pode muito bem dar cabo de uma criança...) aos traumas de adolescência (se poucos minutos daquela prisão me enojaram, imagino o que não farão várias semanas...), passando pelo ponto alto que foi na vida dele o "Massacre da Candelária" (da qual foi vítima, ilesa, mas vítima...). Fio a fio, o novelo (ou a novela?) vai tomando forma até que se embrulha descontroladamente naquela tarde de Junho de 2000. Sandro não sabe o que fazer, as reféns não sabem o que fazer, a polícia não sabe o que fazer, as autoridades não sabem o que fazer. O caos instala-se, a lucidez de raciocínio turva-se (e porque não deixá-lo pirar-se dali, pura e simplesmente...?) e uma situação que pareceia banal (uma das miúdas chega a telefonar para o cursinho a avisar que vai chegar atrasada...) torna-se uma prova para a Humanidade. Prova que, a meu ver, acabou empatada. Humanidade 1 – Barbaridade 1. O desempate pode estar nas vossas mãos. Vejam Ônibus 174 assim que puderem!
Já o Tropa de Elite é diferente. Primeiro, é cinema, não é documentário. Segundo, centra-se no policial, não no marginal (este termo não meu, é da sociedade brasileira...). Terceiro, a Humanidade já não está tão presente, porque Tropa de Elite pretende lançar questões profundas e fomentar (ou será formatar?) o debate na sociedade brasileira (e tal dinâmica não diz respeito à Humanidade...). Tropa de Elite nasce em grande parte na sequência do livro Elite da Tropa de Luiz Eduardo Soares, antropólogo e durante um período Secretário Nacional de Segurança Pública. Ambos se centram no dia-a-dia dos elementos do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), o batalhão da caveira, os homens de negro, os responsáveis pelo "caveirão". O lado incorruptível (será?) das forças de policiamento, mas o lado violento, violentíssimo, da acção policial. O filme mostra-nos como se preparam, e para que fins se preparam, estes soldados da cidade maravilhosa. Soldados, porque é de uma guerra que se trata, dizem-nos. Este é o primeiro desafio social que o filme propõe. De dia para dia este termo – guerra – está cada vez mais presente no discurso em volta do tráfico e da violência. Mas não será isto um profundo erro? Olhando para o BOPE e para as suas acções e métodos, a resposta é evidente. Lamentavelmente, não o é para todos. Outro desafio que o filme lança é o do papel das classes médias e altas cariocas neste cenário. A proposiçao é esta: por cada baseado que um "mauricinho" fuma (ou trafica na sua faculdade) há um garoto que morre na favela. Será assim? A mim parece-me que sim, que em locais como o Rio de Janeiro fumar (ou não) maconha, cheirar (ou não) coca, acarreta uma forte responsabilidade social. Por muito que me doa estar de acordo com a maioria dos membros do BOPE (que, como se vê no filme, têm um profundo desprezo pelos "playboys" e pelas suas práticas ilícitas) parece-me que um charro no Rio não é o mesmo que um charro em Lisboa. Estes desafios, estes debates, são intensos e interessantíssimos. Basta pesquisar no YouTube filmes sobre a violência policial no Rio de Janeiro e assistir às batalhas de comentários que acompanham cada filme para se perceber que o tema é tudo menos pacífico. Se não é pacífico, será, então, a guerra...?
A cópia que eu vi parece-me que não é a final. A que eu vi foi comprada num camelô bem no centro do Rio de Janeiro, ainda o filme estava a ser montado (a gigantesca máquina de pirataria deste filme gerou outro vasto e interessante debate). Mas gostava ainda de ver a versão final. Gostava de saber se o agente Matias acaba ou não com o traficante e, caso o faça, de que maneira o faz. Parece-me importante sabê-lo. Assim como o vi, ontem, na cópia do camelô, não me agradou, mas, diga-se, neste assunto nada é lá muito agradável... Mas o filme, esse, é de ver. Bem filmado, uma boa fotografia e uma óptima preparação de actores (que vim a saber ser da autoria de Maria Fatima Toledo, que já trabalhara com os miúdos da Cidade de Deus e com os graúdos da Cidade Baixa). A ver, decididamente. E como dizia Mónica Marques no seu blog, «e você, está preparado para amar um capitão do BOPE?». [embora, pensando bem, me interrogue sobre o que quereria ela dizer com isto...]
E aqui deixo também a ida de José Padilha ao programa de Jô Soares.
Agora que penso já ter encerrado as minhas idas ao DocLisboa, e em jeito de comentário final, permitam-se-me duas notas finais. 1. Bilheteira centralizada já! É preciso, é serviço, não dá para adiar mais. 2. Sessões próprias para visitas de estudo. É óptimo que haja professores que estejam atentos e achem que é útil levar os seus jovens estudantes ao cinema, ao documentário. Não se discute tal acção. Mas a realidade é que se alguns jovens se comportam civilizadamente (e aqui lembro-me dos menino(a)s do Valssassina que estoicamente aguentaram as 3h30 de Wiseman...) já outros são umas verdadeiras bestas (refiro-me aos idiotas que ontem foram à Culturgest ver os Halfmoon Files). Nesta última sessão foi por um fio que não se chegou a vias de facto... Já que os professores/progenitores desta malta não tem mão neles, ao menos que o DocLisboa lhes dê uma sala só para eles...
Hoje pude ver o documentário State Legislature (2007) de Frederick Wiseman. São 3 horas e meia (de 160 filmadas!) de puro deleite legislativo. ?!?! Tal coisa é possível? Então não é! Para mim, que sou grande fã da ARTV (e quem me conhece e/ou por aqui passa sabe que je plaisante pas), é mesmo uma delícia, uma ARTV de luxo. Wiseman, como sempre faz, "apenas" se limita a deslizar perante os seus objectos, e os objectos dos seus objectos, e, como sempre faz, deixa-nos mais ricos. Ver como o corpo legislativo do estado norte-americano de Idaho se desenrola dia após dia (três meses por ano, que nos outros nove cada um vai à sua vida...) é uma experiência e tanto. Aqui há uns tempos falei aqui da experiência que é assistir à construção de Portugal (uma de múltiplas, para ser mais correcto), pois hoje assisti um pouco àquilo que é a construção do Idaho e, por tabela, desse país tão rico quanto estranho que dá pelo nome de EUA. Wiseman no seu melhor! Sério candidato ao melhor documentário (por mim visto) no DocLisboa 2007.
... se há dois dias vi um documentário à maneira, ontem vi uma verdadeira banhada. Nuns dias chove, noutros faz sol. Tudo bem. Mas este era mesmo mau. Tão mau que acabei por fazer algo que raramente faço, isto é, saí a meio. Gosto de acreditar que tenho uma capacidade de aguentar maus filmes (e já vi tantos, meu Deus...), que por muito maus que sejam fico até ao fim, não tanto numa de "esperança é a última a morrer" mas mais numa de "a vida é isto mesmo". Mas tenho de dizê-lo, este não era só mau. Este documentário era desonesto (e não há pior que um documentário desonesto). E isso para mim foi fatal e preferi matá-lo logo do que arrastar-me juntamente com ele. Falo de On Hitler's Highway de Lech Kowalski. Um filme que teve direito a duas projecções, ambas esgotadas. Um filme integrado numa secção do festival dedicada exclusivamente a Lech Kowalski. Um filme importante, portanto.
Partindo de uma história com um enorme potencial, o documentário acaba por ser o assassinato da mesma. Tanto Hitler como a auto-estrada apenas moram no título. O resto, o filme em si, é Kowalski, Kowalski, Kowalski. Me, me, me. O que para mim (mas gostos discutem-se) é crime grave em documentário. Filmado à mão, irritantemente, mas isso é estilo (e estilos também se discutem), o filme transporta-nos ao longo da auto-estrada (contruída pelos trabalhadores polacos escravizados pela Alemanha nazi) que o exército alemão desenhou para a sua expansão em direcção ao Leste. A mesma auto-estrada que ainda hoje lá se mantém, remendada, estafada, repleta (nas bermas e apeadeiros) de indigentes, deslocados e prostitutas. E Kowalski lá vai filmando e inquirindo os indivíduos sobre uma auto-estrada que ele próprio não estudou (não acredito que o tenha feito; a parte sobre as pontes é sintomática disso). E lá vai falando da guerra passada e das marcas que ainda hoje perduram, enquanto nos mostra uma mata poluída (chega ao ponto de fazer close-ups a preservativos usados!), uma mata poluída! Mas o gajo é parvo?! E depois pára, perdurando, pateticamente, numa zona onde algumas prostitutas descansam e dão à língua. Numa cena (a que me fez levantar e sair) Kowalski está à conversa com umas tantas prostitutas e uma delas pede-lhe que páre de filmar (uma outra estava a emocionar-se demais ou algo parecido) e ele afirma que sim, desce a câmara, não pára (a cena não tem corte), levanta-a de novo e prossegue com a filmagem. Mais desonestidade não há. Mesmo que, posteriormente, tenha falado com elas e tenha obtido a sua permissão, o corte tinha de lá estar. Isto não é crime grave em documentário, é crime capital. Levantei-me e fui-me embora.
Terça-feira que vem tenho mais Kowalski para ver. Mas como o tema é a bola, mais propriamente a final do Campeonato do Mundo de 2006 (o jogo da cabeçada de Zidane), deve ser mais easy going. Será?