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domingo, março 14, 2010

Lingua Tertii Imperii {#09}



«Aqui cabe destacar a enorme importância da palavra ewig [eterno]. É uma daquelas palavras do léxico da LTI cujo aspecto especificamente nazista decorre de um uso despudorado: na LTI, tudo é historisch [histórico], einmalig [único] e ewig. Podemos considerar que ewig ocupa o mais alto grau da longa escada de superlativos nazistas. Atingindo-se esse estágio mais alto, pode-se entrar no céu. O atributo ewig está relacionado somente com o divino; quando qualifico algo como ewig, elevo-o à esfera do religioso. Na inauguração de uma Hitlerschule, no início de 1938, Ley disse: wir haben den Weg in die Ewigkeit gefunden [encontramos o caminho para a eternidade]. Nos exames de conclusão de cursos era comum haver a "pegadinha": Was kommt nach dem Dritten Reich? [o que vem depois do Terceiro Reich?]. Se um ingênuo ou um novato respondesse das vierte Reich [o Quarto Reich], era eliminado, mesmo que possuísse bons conhecimentos. A resposta correta era: Nichts kommt dahinter, das Dritte Reich ist das ewige Reich der Deutschen [Nada, pois o Terceiro Reich é o eterno Reich dos alemães].»


Trecho retirado do LTI. Lingua Tertii Imperii, Victor Klemperer, Contraponto, 2009.

Lingua Tertii Imperii {#08}



Se System é um termo proibido, então como se chama o sistema de governo dos próprios nazistas? Pois os nazistas, é claro, possuem um sistema de governo e sentem orgulho de que ele esteja na origem de cada manifestação e de cada situação de vida, razão pela qual Totalität é um dos pilares da LTI. Eles não possuem um "sistema", e sim uma organização Não sistematizam com a razão, mas ficam na espreita, tentando captar os segredos do organisch [orgânico].»

«Em 1936, trabalhando sozinho, um jovem mecânico conseguiu dar conta de um conserto complicado e urgente em meu carburador e disse: Habe ich das nicht fein organisiert? [Organizei isso bem, não é?]. As palavras "organização" e "organizar" estavam de tal forma enfronhadas em seu ouvido, ele se encontrava de tal forma impregnado da ideia de que qualquer trabalho tinha de ser organizado, ou seja, distribuído por um chefe para um grupo, que não lhe ocorriam expressões comuns como "trabalhar", "resolver", "executar" ou simplesmente "fazer".»


Trecho retirado do LTI. Lingua Tertii Imperii, Victor Klemperer, Contraponto, 2009.

Lingua Tertii Imperii {#07}



[6 Milhões no Desemprego. 6 Milhões Sem Pão.]

«Há o sistema de Copérnico, há sistemas filosóficos e sistemas políticos. Mas, quando o nacional-socialista diz "o System", ele se refere especificamente ao sistema da Constituição de Weimar. [...] Para os nazistas, o sistema de governo da República de Weimar era pura e simplesmente o System, contra o qual eles estavam em conflito permanente. Consideravam-no a pior forma de governo, alimentando contra ele uma oposição feroz, em contraposição à afinidade que sentiam, por exemplo, em relação à monarquia. [...]


Trecho retirado do LTI. Lingua Tertii Imperii, Victor Klemperer, Contraponto, 2009.

sábado, março 06, 2010

Lingua Tertii Imperii {#06}



«Muito antes do SS nazista existir, esse símbolo aparecia em vermelho nas caixas dos transformadores de voltagem, com a frase de advertência: "Perigo, alta tensão!" Nesse caso, era óbvio que o S dentado representava um raio estilizado. Pela energia e a rapidez, o raio era um símbolo caro ao nazismo, de modo que se podia supor que o sinal gráfico SS era uma materialização, uma imagem pictórica do raio. A linha dupla podia representar força redobrada, pois as bandeirinhas pretas das formações das crianças só tinham um S, ou seja, meio SS.»


Trecho retirado do LTI. Lingua Tertii Imperii, Victor Klemperer, Contraponto, 2009.

Lingua Tertii Imperii {#05}



«SA e SS [...] tornaram-se abreviaturas impregnadas de tanta prepotência que deixaram de representar siglas. Passaram a ser palavras com sentido próprio. Seu significado original desapareceu.
Estou escrevendo aqui SS com a linha sinuosa dos caracteres normais de imprensa, premido pela necessidade prática. No tempo de Hitler, o SS das caixas tipográficas e do teclado das máquinas de escrever, usadas nas repartições públicas, era uma tecla especial com ângulos agudos que correspondiam à Siegrune [runa germânica da vitória]...»


Trecho retirado do LTI. Lingua Tertii Imperii, Victor Klemperer, Contraponto, 2009.

Lingua Tertii Imperii {#04}



«No outono de 1941, quando já se sabia que a guerra não terminaria logo, ouvi falar amiúde a respeito dos acessos de ódio de Hitler. Inicialmente teriam sido assomos de fúria, em seguida ímpetos de cólera. Dizia-se que o Führer mordia lenços e travesseiros, e que teria até mesmo se atirado no chão para morder o tapete.
As historietas provinham sempre de gente simples do nosso círculo, como operários, vendedores ambulantes e carteiros imprudentes. Enfim, dizia-se que ele tinha devorado as "franjas do tapete", e por ter adotado esse hábito recebeu o apelido de Teppichfresser [devorador de tapetes]»


Trecho retirado do LTI. Lingua Tertii Imperii, Victor Klemperer, Contraponto, 2009.

Lingua Tertii Imperii {#03}



«Algum tempo depois eu lhe perguntei sobre um rapaz que conhecia. Ele deu de ombros:
— Está na AEG, você sabe o que isso significa, não é? Não? Alles Echte Germanen [Todos Germanos Autênticos].
Ele sorriu e estranhou que eu não acompanhasse o sorriso.»


Trecho retirado do LTI. Lingua Tertii Imperii, Victor Klemperer, Contraponto, 2009.

terça-feira, setembro 01, 2009

Ouroboros


Foi há 70 anos. O princípio do fim. Foi há uma vida.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Berlim, 1945

«Aprés s'être tues si longtemps, ces grands-mères meurtries qui, dans leur maisons de retraite, sont prises de panique lorsqu'elles entendent des aides-soignantes parler russe ou lorsqu'on veut leur poser une sonde urinaire, sont-elles prêtes, au terme de leur vie, à raconter leur grand secret?»

A propósito de Anonyma, eine Frau in Berlin que o mais certo é ser uma banhada {trailer aqui}, mas sobre o qual, e cujo tema, o artigo do Le Monde de hoje levantou pontas perturbantes como a das linhas acima. A imagem é assustadora, não é? Quase que dá para cheirar a alcatifa e o rasto de sangue que a História vela, dia após dia.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Fritz Walter


«Walter, a midfielder with I.FC Kaiserslautern, was a man of some footballing sophistication but personal simplicity and an obvious cypher for the characteristics of the German workforce that were hauling the country out of its economic abyss: focused, modest, loyal, unyielding and undying in his dedication to the collective cause. His enigmatic reticence made his life magnetic to myth and legend. At the end of the war Walter was attached to the football team of an air-force unit on the Eastern Front. He was captured by the Americans but handed over to the Soviets who put him on a train for Siberia. At the final stop at the Ukraine he joined a kickabout with the guards. He was recognized by the camp officers and miraculously sent back to Germany. During the war he was said to have contracted malaria, a condition he never entirely shook off, and was ever after strangely energized by dank wet weather – known colloquially as Fritz Walter weather. This was a man who miraculously survived the Armageddon of defeat and occupation, who carried the feverish sickness of the whole experience in his veins, who came back to the same club and the same life he had left in 1939 and just tried to get on with it.» David Goldblatt, The Ball Is Round, 2006


Fritz Walter, o primeiro alemão a erguer a Taça Jules Rimet, que é como quem diz o primeiro alemão campeão do mundo. Nos idos de 1954 sob a batuta de Sepp Herberger dirigindo o Das Wunder von Bern.

Rectificação — Na verdade, Fritz Walter foi o primeiro alemão a "segurar" a Taça Jules Rimet, e não a "erguer". Pois, como é sabido, o primeiro homem a fazê-lo, mesmo que por sugestão alheia, foi Hideraldo Bellini, 4 anos depois, na Suécia, quando o Brasil conquistou a sua, também, primeira Taça Jules Rimet.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Das Wunder von Bern

Como não ficar plenamente emocionado ao assistir a isto?









Estádio de Wankdorf, Berna {Suiça}, 4 de Julho de 1954. Final do V Campeonato do Mundo de Futebol. A fenomenal selecção da Hungria face à pouco reconhecida selecção da RFA. E o Milagre de Berna perante os olhos de milhares e os ouvidos de muitos mais. A Alemanha de Sepp Herberger e de Fritz Walter derrotando a Hungria de Gusztav Sebes e Ferenc Puskas! Mein Gott! Provavelmente a mais completa partida de futebol de sempre {embora esteja certo de que os brasileiros devam contestar tal imputação...}. Pela emoção do jogo propriamente dita, pela qualidade do jogo jogado, pelos casos {o offside a Puskas ainda hoje é contestado}, pelas bolas à trave, pelas magníficas defesas de ambos os guarda-redes, pela chuva torrencial, pelo lindíssimo relógio Longines, na torre, sempre presente, assustador e, sobretudo, pela implicação política que representou o regresso da Alemanha à competição e à realização de feitos de cariz mundial. E pelo relato radiofónico de Herbert Zimmermann, considerado por muitos como um dos mais expressivos e emocionantes radialistas desportivos de sempre {embora esteja certo de que os brasileiros devam contestar tal imputação...} Ainda hoje os seus efusivos berros finais «Aus! Aus! Aus! Das Spiel ist aus. Deutschland ist Weltmeister, schlägt Ungarn 3 zu 2!» são reconhecidos e despertam emoções na Alemanha. E, nem que fosse por este momento {ver os primeiros segundos do 3.º filme}, pela belíssima, deliciosa, magnética, fritzlanguiana saída de Sepp Herberger dos balneários, prestes a enfrentar a segunda parte e o destino.

quinta-feira, junho 26, 2008

Mais perspectivas...

Os jogos de futebol são um pouco como os filmes... devem ser vistos e revistos, várias vezes. A meu ver um jogo de futebol não se esgota no momento em que ocorre. Aliás, um jogo de futebol nunca é apenas e somente um jogo de futebol... Num jogo de futebol podem ver-se comportamentos humanos, dinâmicas de grupo, "fezadas" grupais, auto-imagens de sucesso, desejos inconcialiáveis, momentos únicos das histórias dos povos. Até a nós próprios nos podemos ver ali reflectidos... Por isso, quando possível, devemos rever os grandes jogos da nossa vida.

Ontem à noite revi grande parte do recente Holanda-Rússia, no Eurosport. A primeira conclusão foi a de que a Holanda não jogou assim tão mal como eu imaginava {e porque imaginava eu tal coisa, veremos já a seguir...}. Por um lado, isto abona um pouco mais a favor dos russos, pois afinal não bateram em ceguinhos...; por outro, comprova que foi a total falta de eficácia holandesa no último toque, no remate, no desvio para a rede, a par do que já aqui mencionei, os dois motivos fortes para o desaire. A Holanda massacrou mesmo em certos momentos. Mas não foi feliz. E contudo quem me lê neste momento, e viu o jogo então, não reconhece nada disto... Porque, e aqui entra a segunda conclusão {e a explicação para o recurso à imaginação ser tão frequente...}, a maior parte das pessoas vê os jogos com os ouvidos. Estamos em frente ao televisor, vemos os tipos a esfalfarem-se no relvado, mas onde estamos mesmo concentrados é nos comentários, nas observações, nas resenhas do que é suposto estarmos a ver... Bizarro, não é? Mas é verdade. E se ao vermos um jogo estivermos em grupo, cervejas à mistura, confusão geral, ainda menos objectivos somos e ainda mais destes paliativos nos socorremos. Porque eu, ontem, ao ver o jogo na Eurosport vi outro jogo, e em muito, apercebi-me, devido aos novos comentadores e respectivos comentários. No sábado passado eram os tipos da TVI, agora eram os da Eurosport. Aqueles tipos do Eurosport {e nem está em questão a qualidade de uns e de outros; embora estes sejam muito melhores...} tornaram possível outra leitura do jogo. Mas a grande questão é porque terão estes tipos, os comentadores, tamanha interferência, importância, na nossa percepção do jogo? Porque não conseguimos neutralizá-los? Como fazê-lo? E na impossibilidade de os neutralizar como fazer de modo a escolhê-los? Pagava para saber...

Porque no sábado a Rússia era um portento, uma pérola do futebol europeu, uma potência que só na final pararia. Ontem ao rever o jogo já não foi nada disso que vi. Vi antes uma cambada bem organizada, fisicamente dura e apostada única e exclusivamente no contra-ataque. E hoje, o que se viu? Bom, isso e uns três golos sem resposta...

E agora, que já não há Turquia nem Rússia? E, sobretudo, que já só há Alemanha {valha-nos Deus, diz o Sr. Manel} e Espanha {cruzes canhoto, devolve a Dona Emília}. Como ficam, com quem ficam, as apetências, as fabulações, os devaneios dos portugueses? Acabou-se, não é? Que comecem, então, os fogos florestais.

quarta-feira, junho 25, 2008

Perspectivas...

O curioso dos momentos mencionados nos dois posts anteriores é o timing, daí o serem tão interessantes. Dava mesmo a sensação que, caso o jogo tivesse mais 5 horas de duração, a cada observação feita com a intenção de diminuir a Alemanha, esta marcaria mais um golo. Totalmente confrangedor.

Mas estas observações que referi não foram casos isolados. Não. O tipo {o da TVI mesmo; que o L. Sobral até tentava dar crédito aos alemães; ele sabe mais... muito mais} esteve o jogo todo a fazer o jogo dos turcos. É impressionante a falta de objectividade desta gente. Uma vez Portugal fora da competição, estes bizarros personagens vestem a pele da equipa mais fogacheira, mais improvável, mais "raçuda", mais sortuda, mais desequilibrada e mais mal preparada das que seguem em frente, isto é, a mais parecida com Portugal. Porque é disso que se trata, não é? Portugal é uma espécie de Turquia e a Turquia é uma espécie de Portugal. A grande diferença é que Portugal já "enganou" a União Europeia há mais tempo... A grande semelhança é que ambas perdem com a Alemanha... e pelo mesmo resultado.

Note-se que o tipo da TVI não é, também ele, um caso isolado. Não. Desde quinta-feira passada que é notório que uma grande parte dos portugueses está {estava} com a Turquia, e que a outra parte está {ainda} com a Rússia. É esta a sina dos pequenos. Escolher alianças fracas. Só não consigo bem perceber com que vero sentido. Se numa de empatia pura e simples, tipo "estar com os mais fracos". Se numa de estando pela Turquia, torcendo para que a Turquia ganhe o torneio, os portugueses garantem que o campeão foi, ao menos, vencido por Portugal. Ha ha ha. Ou se mesmo por vingança básica e primária {e inclino-me mais para esta versão}, tipo "a Alemanha ganhou-nos e agora estamos por qualquer um que a derrote".

Uma sondagem da Newcom Research afirma que metade dos holandeses está, desde sábado, com a Rússia. Conseguiriam estar os portugueses pela Alemanha até ao fim? Bom, é verdade que esta pergunta é muito difícil... Pela Alemanha só mesmo os alemães, não é? Brutos dum catano! Aqueles tipos são uns gestores em calções... Raios os partam!

Minuto 89, Alemanha-Turquia

A Alemanha marca o terceiro golo, aquele que provavelmente a levará para a final... E no preciso momento em que o imbecil da TVI afirma que esta Alemanha é cinzenta... Eu não disse? O homem é mesmo estúpido... É o que dá observar jogos de futebol com o coração... Porque hoje somos todos turcos, não é? Santa ignorância...

Minuto 76, Alemanha-Turquia

Klose marca o segundo golo da Alemanha, aquele que certamente os colocará na final. E no preciso momento em que o imbecil da TVI afirma categoricamente que esta Alemanha é muito fraca, muito isto, muito aquilo... Santa pachorra! E eu ainda fico a ver isto...

segunda-feira, junho 23, 2008

Acabou-se...

Ainda hoje não sei o que se passou, o que se terá passado... Não alinho com a ideia de que os russos desbaratinaram os holandeses. Que cilindraram. Que isto e que aquilo. Não faz sentido algum. É óbvio que a Rússia ganhou, categoricamente, sem espinhas, e fê-lo muito bem {podia até tê-lo feito por mais...}. Mas não foi por ser um espectáculo de organização ou de futebol avassalador {e isso vai ver-se mais à frente}. Fê-lo porque a Holanda desapareceu, pura e simplesmente. E nem foi no sábado, frente aos russos, que desapareceu. Não, ela desapareceu entre o jogo da Roménia e o jogo dos quartos-de-final. Porque no jogo frente à Rússia já lá não estava. Era mais do que óbvio que a Holanda nunca seria apanhada desprevenida pela Rússia. Sabem preparar os jogos, acompanharam a progressão da Rússia ao longo do torneio, conhecem inclusivamente o seu treinador {um holandês...}, logo, a surpresa nunca seria um factor. Surpresa, surpresa, foi o verdadeiro apagão da Holanda. O que nunca se esperou foi que a Holanda não jogasse, não pressionasse, não atacasse, não jogasse em grupo. Como o fez nos primeiros 3 jogos! Surpresa não seria ver a Rússia a jogar à holandesa {aliás o meu último post antes do jogo referia-o...}; não, surpresa foi ver a Holanda a jogar a sei lá o quê...
O choque por aqui foi tão grande que só hoje me atrevo a encarar o teclado, não li quase nada sobre o jogo, não procurei explicações e justificações; desculpas sequer. Mas consoante o tempo passa mais me convenço de que a explicação só pode estar nas faixas pretas. Sim, parece-me agora mais do que evidente que a Holanda nunca devia ter entrado em jogo com o peso das braçadeiras pretas. O luto por Anissa devia ter sido espiado de outro modo. Ou internamente e ponto final. Ou com um minuto de silêncio ao abrir do jogo. Nunca assim. A Holanda não merecia carregar aquele luto daquela maneira. Como sorrir naquelas vestes? Como encarar aquele jogo à semelhança dos outros jogos? Nos 3 jogos iniciais não houve jogador que não ostentasse um largo sorriso, que não destilasse alegria enquanto corria pelo relvado. Era o prazer pelo prazer. Como fazê-lo naquela noite? Eram energias distintas, antagónicas, incompatíveis. Só lhes restou arrastar a carcaça. Tentar resolver individualmente. Esbracejar. Penar. Adiar o inadiável.

Henk Kesler, o presidente da KNVB {o Madaíl holandês...}, declarou logo no dia seguinte que os holandeses não irão trabalhar no dia 23 {hoje} com a alegria e o brilho nos olhos das semanas anteriores. E que as vitórias e as derrotas, no desporto {como na vida, acrescento eu} estão ligadas intimamente. C'est la vie, já tinham dito os franceses uns dias antes...

E a tristeza que invade o corpo daqui para a frente? A cada ataque espanhol ou italiano uma alfinetada. De cada centro dos pés de Torres ou de cada corte de Aquilani uma dor de alma. A Holanda já não os enfrenta na quinta-feira que vem... Além do que o estúpido do homem não pára com a cena de que a Rússia espera pacientemente no sofá... No sofá? O gajo é mesmo imbecil! No sofá estou eu... enterrado, apático, triste.

Acabou. Já não há verdadeiro prazer na coisa. Quando isso acontece, a Alemanha vem e ganha. É esse o estratagema, sacanas... Campeões europeus pela quarta vez.

sábado, junho 14, 2008

Alexandre Andrade dixit, parte 2

«PORQUE NÃO APOIO A SELECÇÃO (2): Porque é comandada por um homem sem carácter. Agredir um membro de uma equipa adversária, em directo, e perante milhões de telespectadores, é já de si uma atitude extremamente condenável, e que levaria a despedimento com justa causa em quase todos os sectores profissionais. Negar o sucedido, não dar mostras de arrependimento, minimizar a gravidade do caso por meio de um punhado de trôpegas justificações, e apenas se desculpar muito mais tarde, e ainda por cima claramente a contragosto, eis o que define um perfil moral muito rasteirinho. A cereja em cima do bolo foi o recurso apresentado após uma sanção que só pecou por brandura, recurso apoiado pela Federação e inexplicavelmente acatado pela UEFA. Todo o país ficou a saber que ao seleccionador da equipa nacional de futebol tudo se desculpa. Não deveria ser assim, Trata-se de um cargo principescamente remunerado, com elevada exposição mediática e que acarreta responsabilidades de representação do país. A tolerância para prevaricações e comportamentos de arruaceiro deveria ser menor do que num cargo normal, e não maior.
Scolari é um grande treinador; isso não contesto. [eu aqui tenho de contestar...] Acho bastante graça àqueles que tentam relativizar o seu brilhante currículo por meio de golpes de rins argumentativos que fariam inveja aos sofistas da antiguidade. Porém, ser um grande treinador não chega.»




Chamo igualmente a atenção para um outro texto do Alexandre em relação ao sururu causado por uma afirmação de Lukas Podolski sobre como «o futebol é como o xadrez, mas sem os dados». Ao que parece Podolski detém mais do que aquela dose de inteligência que estamos geralmente dispostos a querer reconhecer num jogador de futebol. Só pode ser por estarmos mal habituados... Mas esquecemo-nos que lá para cima os tempos, os climas, os governos, os mercados, os camionistas, enfim, os jogadores são outros. Isto fez-me lembrar umas citações muito interessantes {que aqui postei há uns tempos atrás} sobre o papel do raciocínio no futebol holandês. E faz-me lembrar, claro, o belíssimo jogo de hoje frente à França {tal como a anterior frente à Itália} onde se pôde ver na prática estas linhas de Auke Kok – «The good player is the player who touches the ball only once. And knows where to run.»

quarta-feira, junho 04, 2008

As minhas selecções, parte 2

{parte 1}

Isto tinha de parar, pensei. Urgia abraçar uma selecção que me desse garantias... lol. E, naturalmente, surgiu a França. E que França! Era a França de Platini, de Giresse {lindo!}, de Amoros, de Batt, de Tigana {o que eu gostava dele!}, Fernández, Tresor, Battiston e Six. E era a França que eu começava a descobrir, a França que eu visitara no ano anterior, naquela que foi a minha primeira saída a sério, ao exterior. Eu e o meu pai, uma semana em Paris, oh lá lá, la belle vie! A França da Paris que ainda vibrava no meu coração. A França do Francês que aprendia então, na escola, com o maior dos prazeres. E, sei-o hoje, sentia-o então, é por razões destas que eu escolho torcer por um país, e pela sua selecção. Foi isto que aprendi então. Eram as letras, as telas, os sons, o Sena, os jardins, a carte orange e a orangina de pamplemousse que eu via naqueles calções brancos espreitando timidamente entre as camisas azuis e as meias vermelhas! E só assim faz sentido, para mim, desde então. E também aqui o desenho, a estética, a marca, jogaram forte. Não o esqueçamos, a França também era o Le Coq Sportif! Quem é da minha geração sabe bem a importância destas palavras. Muito desenhei também aquele galo... e quantos ténis daquela marca {particularmente o modelo Arthur Ashe} esfrangalhei.
Eu já tinha dado pela França quando ainda andava abazurdido com o escrete de 1982. E como esquecê-los? Sobretudo depois daquela entrada brutal de Schumacher sobre Battiston, naquela endiabrada meia-final em Sevilha, como poderia eu esquecê-los? E como não poderia eu "odiar" para sempre os alemães {sim, creio que é desde aí que não posso com eles... a atitude de Schumacher é absolutamente odiosa}, que agora se juntavam aos italianos. Eu já os conhecia, portanto, e agora, chegado 1984, e acabado o meu flirt fugaz com a Escócia, era o momento certo para a adopção dos bleus, logo agora, que lhes cabia a organização do Europeu de Futebol. Mas com esse namoro declarado, eis que veio a prova de fogo... Portugal frente a frente à França, nas meias-finais. Dommage! Lembro-me como se fosse ontem. Estádio Vélodrome, Marselha, 23 de Junho. Noite de São João {com fogueiras e tudo}. A casa da minha mãe estava pejada de gente, tudo em volta da televisão, uma barulheira dos diabos, todos menos um a torcer por Portugal... E Portugal tinha uma selecção do caraças, meio Benfica lá dentro! O jogo até começou bem {1-0 aos 24' por Domergue}, a França e Portugal faziam magia e a um quarto de hora do final Jordão empata o jogo e leva-o para prolongamento. Que começa praticamente com o 1-2 {novamente por Jordão} e que, durante um quarto de hora, me deixa totalmente exaurido {imaginem...} até novo empate {novamente por Domergue}. E a um minuto do fim, quando já toda a gente esperava pelas grandes penalidades, Platini {quem mais?} marca o golo da vitória! Aquela França era a maior. E foi-o novamente, mais tarde, na final frente à Espanha. E continuou-o a ser, para mim, no Mundial de 1986, no México. Saltillo e as suas macacadas passaram-me ao lado, era Platini e os bleus que eu queria. Tinha definitivamente {pensava eu} encontrado a minha selecção. E já nem a derrota que impuseram ao Brasil de Sócrates me incomodou... aquela série de penalties final é ainda hoje um mimo... Não, na França eu vingara a má sorte canarinha de 4 anos antes e, em simultâneo, encontrara uma equipa forte, bela, elegante e vencedora. Tinham ganho o Europeu dois anos antes e abalançavam-se para a conquista do Mundial {tinham equipa para isso}. Mas eis que surge no caminho, novamente na meia-final, a Alemanha... A França já tinha feito a proeza de eliminar a Itália e o Brasil e agora ainda lhe colocavam estes tipos {novamente} à frente? Ok, era fruta a mais, mas era possível. Mas não foi... Naquele jogo Platini percebeu que se tinha acabado o sonho {o Europeu de 88 e o Mundial de 90 já não contariam com a França}. A Alemanha seguiu para a final e lá teve o que merecia... A taça era da Argentina! Da preciosa Argentina e do maior jogador de sempre, Diego Maradona. Nunca uma selecção aliou tão bem a mestria da bola com a mestria da "ciganice"! Essa é igualmente uma importante descoberta para quem anda a aprender os misteriosos caminhos da bola... Ah, além de que eram a outra selecção que era vestida pela Le Coq Sportif...
Entretanto eu entrava a toda a brida nos meus 15 aninhos e as minhas paixões começavam a ser outras...

{continua}

sexta-feira, maio 02, 2008

WOW!


«During a seemingly endless nighttime hypertextual journey through Wikipedia — one that took us from Tempelhof to a crash course on Nazi architecture and to Hitler's imagined future capital, Welthauptstadt Germania, a city that became a ruin without first having existed, and to Albert Speer, whose post-war gardening activities are worth detailing, which we will in a future post, i.e., if we still have the stamina to trudge through his excruciatingly long diary for the few relevant entries, before looping back to the start to then read about the Berlin Airlift, whose infrastructural and spatial organization, including the three air corridors above the blockaded Soviet Occupied Zone, we find so utterly interesting — we discovered the Schwerbelastungskörper.
So what is it?
It's a massive cylindrical block of concrete, standing 18 meters high and weighing in at 12,560 metric tons. It is located in the Berlin neighborhood of Tempelhof, where the eponymous airport is found.
The name is translated as “heavy load-bearing body,” although someone in the discussion page has suggested that “heavy load-exerting body” might be more accurate. It was constructed in 1941 to test how well the marshy ground upon which Berlin sits could handle the massive projects planned for Germania. More specifically, it was built to see how the landscape would react to Hitler's gigantic Triumphal Arch, whose opening would have accommodated Paris' Arc de Triomphe.
The results were not encouraging: The Schwerbelastungskörper sank 7 inches in the three years it was to be used for testing, a maximum depth of 2.5 inches was allowed. Using the evidence gathered by these gargantuan devices, it is unlikely the soil could have supported such structures without further preparation.
Hitler dismissed these findings, perhaps confident that the landscape can be subjugated with fine Teutonic engineering. But Hitler's capital had to wait. There was a war to be waged.»

Via Pruned.

domingo, abril 20, 2008

Je vous souhaite une bonne nuit...

No rescaldo de tanto ódio e vitriol, de tanta patacoada de um lado e do outro, no final de mais uma época de jornadas de ódio e maledicência, de tanta ignorãncia e energia mal gasta, faço minhas as palavras deste senhor...... a propósito deste outro...«Il ne faut offenser personne, même un ennemi.» Era bom que assim fosse. É difícil, bem sei, mas ainda assim...


{paroles e photos retirados desse grande filme que é o Le Silence de la Mer.}